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Sem pil

Não é culpa de Ang Lee e sim de Yann Martel – embora se usássemos a lógica de Camus o cineasta também devesse carregar esse fardo. As Aventuras de Pi, inspirado no livro quase homônimo, A Vida de Pi (2001), pode ter excelentes atributos, desde a história até as questões técnicas – como a fotografia e os efeitos especiais – entretanto, todos parecem sofrer de uma triste amnésia.

Quando o livro do canadense ganhou o prêmio Man Booker em 2002, um jornalista do Guardian notou a “semelhança” com Max e os felinos (1981), do gaúcho Moacyr Scliar, morto em 2011. A partir de então, as duas obras se vincularam para todo o sempre e Martel, ao ser questionado sobre a apropriação da ideia, afirmou que não havia lido o livro e que apenas tomou conhecimento da história por meio de uma resenha – desfavorável.

Em suma, o que ele quis dizer é que tomou “emprestado” um tema interessantíssimo, porém, mal lapidado. Essa “explicação” desagradou, e muito, Scliar – com toda a razão -, mas a despeito desse infortúnio, dispensou todas as ofertas de processo oferecidas por advogados all over the world.

Histórias cruzadas

Enquanto Max é um fugitivo da Alemanha nazista, o Pi de Martel é um dissidente indiano que ruma ao Canadá – e não ao Brasil, como Max. Scliar preferiu um Jaguar. Martel o transmutou em tigre de bengala. Obviamente, as duas contações são alegorias para questões políticas e vão além – cada qual com a capacidade criativa e original de seu criador.

Blackstock, jornalista que percebeu o cruzamento das histórias, afirma que o brasileiro é/era um dos escritores mais respeitados, entrementes, esse “título” pareceu passar desapercebido do congênere estrangeiro e que algumas vezes o tachou de ruim – apesar de a edição brasileira de A Vida de Pi conter agradecimentos ao gaúcho. E onde entra Ang Lee nisso tudo?

O taiwanês, que tem no currículo o premiadíssimo O Tigre e o dragão (2000), foi um tanto infeliz ao adaptar o “genérico” e não original. Pensar em Pi e deixar de lado Max é uma falta de respeito à memória de um escritor do peso de Scliar, mais que isso, saber do “plágio” e ainda assim assumir a produção demonstra – com tristeza – o quanto é importante vender uma ideia e não produzí-la.

Martel não criou, propriamente dito, – usou uma ideia, que nada tem de mal trabalhada, e atribuiu as suas cores -, mas deixou os vestígios para uma obra superior e que merece os louros do tempo.

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