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Nada de meias palavras

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Nada de meias palavras

Arquivos da Tag: Literatura

Chico Buarque completa 69 anos nessa quarta-feira

19 quarta-feira jun 2013

Posted by jonatanrafaeldasilva in Ensaios, Literatura, Música, Notícias

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Chico Buarque, ensaios, Literatura, Música

Chico Buarque é uma daquelas figuras-prodígio que aparecem poucas vezes na Terra. Completando 69 anos nessa quarta-feira (19), Chico atravessou diversos momentos em sua vida e em sua carreira chegando, em muitos momentos, a criar a confusão das ideias entre o que é arte e o que é mundo real. Prova disso é sua incursão pela música, literatura e teatro, cada uma com competência e qualidade, tanto que não são poucos os prêmios que acumulou, como o Jabuti, pelo livro Leite derramado, de 2009, que, apesar de toda a polêmica, foi mais merecido.

Figura importante no processo de redemocratização do Brasil, Chico chegou a ter de ir embora – em uma espécie de autoexílio – para a Itália, além de criar um heterônimo, assim como Pessoa, um dos de seus poetas preferidos, para fugir da censura que já não avaliava mais suas letras, simplesmente as vetava. Julinho da Adelaide, o “alter ego” malandro criado por Chico, era filho de uma negra com um alemão e chegou dar diversas entrevistas aos jornais brasileiros.

Nessa época, Chico Buarque havia se transformado em um verdadeiro herói da resistência, criando uma aura ainda maior em torno de si, mas ainda assim permaneceu avesso aos holofotes que tanto o persegue. Tímido, ele nunca escondeu que não gosta de aparecer e que não é muito afeito aos shows que seus fãs tanto pedem.

Bastidores

Quando “reapareceu”, em 2011, com Chico e uma turnê que percorreu todo o Brasil, houve a prova de que a admiração por ele não tem idade. Não era difícil encontrar um público heterogêneo em seus múltiplos sentidos: homens, mulheres, crianças, enfim, gente de todas as idades. Os vídeos que eram disparados diariamente com cenas de bastidores da gravação do álbum se transformaram em coqueluche e povoavam as redes sociais.

Quase chegando aos 70 anos, Chico Buarque é tão atual como quando tinha 20. O homem mudo. O artista, também, no entanto, sua importância cresce com o passar dos anos e se transforma em parte da história cultural do Brasil.

Relembre as diversas fases de Chico

A Banda

Apesar de você

História de uma gata

Geni e o zepelim

Seu eu soubesse

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Cinco livros que valem a pena esperar

19 quarta-feira jun 2013

Posted by jonatanrafaeldasilva in Literatura

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Literatura, Série 5

O Nada de meias palavras lista cinco livros pelos quais vale a pena aguardar o lançamento. Temos tanto reedições, como no caso de Vinicius, e obras inéditas, como o caso de Schulze.

Jazz & Co. – Vinicius de Moraes

O anjo esmeralda – Don DeLillo

Alta fidelidade – Nick Hornby

Adam e Evelyn – Ingo Schulze

O Vale do fim do mundo – Sándor Lénárd

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Dan Brown, um escritor dos infernos

14 terça-feira maio 2013

Posted by jonatanrafaeldasilva in Crítica, Ensaios, Literatura

≈ 3 Comentários

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Crítica, Dan Brown, ensaios, Ian McEwan, Inferno, Literatura

Chega às livrarias dos Estados Unidos nesta terça-feira (14) o quarto livro da trilogia (??) com o professor simbologista Robert Langdon. Inferno, escritor por Dan Brown, o “célebre” autor de O Código Da Vinci, é inspirado pela versão dantesca, literalmente, do mundo dos mortos. Assim seus antecessores, Anjos e demônios, o já citado O Código Da Vinci, e O Símbolo perdido, inferno é um emaranhado de teorias da conspiração presas por uma história tênue e segue algo que mais parece um esquema – como veremos adiante.

Dan Brown, uma espécie de Nora Roberts, porém, muito menos profícuo, ganhou fama em 2003 ao lançar ao mundo a “grande teoria” de que Jesus teria se casado com Maria Madalena e que, aos olhos dos parvos, se transformou em algo revelador sobre a história do cristianismo. Fenômeno de massa até em Bagdá. Aos poucos foi se descobrindo que todo o enredo não passava em um copiar e colar de que diversos outros autores fizeram. Qual o grande feito de Brown, então? Encadear ideias e romanceá-las. O que o diferenciaria, por exemplo, de nomes importantes da ficção contemporânea como Philip Roth e Ian McEwan?

Em suma, a qualidade do texto. Enquanto McEwan transforma operações militares verídicas, como a retratada em O inocente, ou fatos históricos determinantes, como o 11 de Setembro em Sábado, Dan Brown vive em um mundo à parte, algo à lá Paulo Coelho, imerso em suposições esotéricas e religiosas, baseadas por crenças e nada mais.

Esquema tático

Quem já leu a “trilogia” com Langdon deve ter atentado a um esqueminha criado pelo autor. Ao que tudo indica, ou ninguém se deu conta propriamente, ou seus leitores realmente não se importam de ler sempre o mesmo enredo engessado, porém, com alguns acontecimentos diferentes.

O desenleio das histórias é muito simples.

ASSASSINATO => MISTÉRIO REVELADOR => ROMANCE INEVITÁVEL

Não há diferenças no desenrolar, os três livros seguem a mesma fórmula embora, logicamente, mudam-se os personagens secundários, os acontecimentos e os lugares. O que esperar de Inferno? Apenas mais uma repetição.

Ao redor do mundo, este é considerado o grande lançamento, o livro que irá salvar as vendas de 2013, da mesma forma como aconteceu com Morte Súbita, de J. K. Rowling, no ano passado. Quando se vê livros como estes, incluindo o 50 tons de cinza, chegando ao topo da lista dos mais vendidos uma pergunta não cala: até que ponto vale a pena uma leitura ruim para alguém que não tem o hábito de ler? Ou ainda: até que ponto esse tipo de leitura é válida?

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Especial Fim de semana: “Laranja mecânica”, a distopia real

23 sábado fev 2013

Posted by jonatanrafaeldasilva in Ensaios, Especial Fim de semana, Literatura

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Anthony Burguess, ensaios, Especial Fim de semana, Laranja mecânica, Literatura

laranja

Anthony Burgess completaria 96 anos na próxima segunda-feira (25), por isso, nada mais junto que o Especial Fim de semana homenageie o livro mais importante deste autor: Laranja mecânica. Lançado em 1962, a obra – junto com 1984, de George Orwell, e Admirável mundo novo, de Audus Huxley – faz parte do inconsciente coletivo quando o assunto é distopia, principalmente, pela sua mais famosa adaptação cinematográfica sob a direção de Stanley Kubrick, em 1971. Apesar de Andy Warhol ter feito a primeira investiga fílmica sobre o livro, Vinyl (1965), somente com o realizador de 2001: Uma odisseia no espaço Burgess viu o sucesso de sua obra-prima dentro da sétima arte.

Mesmo sua produção indo mundo além de Laranja mecânica – sendo composta por obras de não ficção, literatura, ensaios sobre linguística, além de sinfonias e peças teatrais – a saga de Alex e seus druguis é considerada sua maior realização, seja pelo feito de – assim como Orwell em seu clássico – conceber uma linguagem complexa e própria repleta de neologismos à qual chamou de nadsat e era composta, em suma, de sufixos e palavras russas e também das gírias de algumas “tribos” da Inglaterra, como os mods e os rockers – considerados os rebeldes de sua época.

Outra artimanha para conbecer a nadsat foi a inspiração na prosa caótica de Joyce em Finnegans wake, o discurso elisabetano de Shakespeare e a Bíblia, na famosa tradução do Rei James.

Recheado de ultraviolência, as páginas se transformam cada vez mais em eventos reais e, por isso, se torna ainda mais atual, mesmo já tendo completado 50 anos de sua primeira edição. Apesar desse caráter agressivo, Burgess deixou sua marca como católico devoto e usou justamente essa figura religiosa de si para rebater as acusações que recebeu. Nascido da necessidade urgente de deixar à esposa um material digno de espólio, graças a um diagnóstico errado e que apontava o autor com um tumor cerebral, o livro só pode ser concebido porque o escritor descobriu a sua “sobrevida”.

Juventude transviada

A história de Alex funciona como uma sátira cáustica da juventude em todos os tempo e é esse o principal fator que faz com que o livro tenha feito – e ainda faz- tanto sucesso e permite uma importante reflexão sobre a condição social do adolescente e do jovem em geral. Ao formar a gangue, o sociopata traz à tona todas as suas angústias e as dá ao mundo.

Prova cabal, seu fanatismo por música clássica, em especial Beethoven, é o reflexo daquilo que foi exposto em Juventude transviada com James Dean: uma menino bem nascido, mas que sucumbi às pressões sociais e se transforma em um pária, ignorado e subjugado. Entretanto, esse caminho é trilhado sozinho, apesar da companhia de seus druguis – “camarada” em nadsat -, pois, em certo momento é abandonado pelos seus e acaba submetido à Técnica Ludovica, uma espécie de lavagem cerebral para promover a reabilitação de delinquentes juvenis.

Muito além das páginas

Na é difícil imaginar que Laranja mecânica faz parte da cultura mundial e inspirou diversos artistas em vários seguimentos. David Bowie revelou que usou vários aspectos do livro para compor seus álbuns apocalípticos – Ziggy Stardust (1972) e Diamond dogs (1974) – e criar os personagens de ambos – o próprio Ziggy e Halloween Jack.

O visual de Alex – também em sua adaptação cinematográfica de Kubrick – foi responsável por servir de inspiração ao estilista Alexandre Herchcovitch compor sua coleção masculina em 2010. A gravadora Korova, responsável por dar ao mundo discos de Echo and the bunnymen e The Sound, tem seu nome inspirado no Korova Mil Bar, point dos druguis. Vale lembrar, por sinal, o trocadilho de Burgess, já que korova significa “vaca” em russo.

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“Finnegans Wake”, um sucesso na China e “Ulysses”, um fenômeno no Brasil

16 sábado fev 2013

Posted by jonatanrafaeldasilva in Ensaios, Literatura, Tradução

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James Joyce, Literatura, Ulysses Finnegans Wake

james joyce

O assombroso fenômeno que tornou Finnegans Wake (1939) – considerado uma das obras mais difíceis de todos os tempos – do irlandês James Joyce um sucesso de vendas em sua tradução na China tem virado manchete ao redor do mundo. Primeiro, porque o calhamaço de sete volumes por si só deixa leitores, mesmo os mais preparados, de cabelo em pé pelos diversos trocadilhos, jogos de palavras e armadilhas linguísticas criadas pelo autor em diversos idiomas.

A edição chinesa se chama Fennigen de Shouling Ye e foi traduzida para o mandarim pela professora Dai Congrong, de “apenas” 41 anos, e levou oito anos para ficar pronta – o que não é nenhuma eternidade se considerarmos a dificuldade da empreitada e suas muito mais que mil páginas.

A intenção de Congrong é que o livro estivesse ao alcance de estudiosos e escritores, nunca pensando que se transformaria em um fenômeno arrebatador de vendas na China. Para se ter uma ideia, de acordo com o jornal inglês Guardian, a primeira tiragem do primeiro volume saiu com oito mil exemplares e esgotou em um mês. Reparação, do britânico Ian McEwan, considerado um best-seller por lá, vendeu ao todo cinco mil cópias.

Aqui e lá

Quando questionada sobre os métodos utilizados para a transposição dos idiomas, a professora afirmou que teve se simplificar algumas frases, criando períodos mais curtos, porque, caso contrário, seria praticamente impossível. Não é difícil imaginar o porquê muitos leitores não conseguem passar da folha de rosto.

A proposta da tradutora, apesar de controversa, é muito parecida com a escolhida pela professora Bernardina da Silveira que, no começo deste século, fez a segunda tradução de outro clássico joyceano: Ulysses (1921). A principal intenção da brasileira era, justamente, não criar rodeios na linguagem do livro – acusação e pecha que Houaiss carrega até hoje por conta do lançamento da sua tradução em 1966.

Por sinal, a tradução do filólogo ficou um tanto esquecida e longe das prateleiras até o ano passado, quando o curitibano Caetano Galindo levou ao público a terceira tradução do livro que, desta vez, manteve o “y” do título e tinha como principal intento nem ser difícil e nem ser fácil, “somente” fiel ao original. Com o retorno de Ulysses criou-se certo frisson sobre a obra e seu autor, dando novos ares ao irlandês.

Pensando dessa forma, o que se vê por lá não é muito diferente de que se viu por aqui.

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Sylvia Plath: entre o mito e a verdade

11 segunda-feira fev 2013

Posted by jonatanrafaeldasilva in Ensaios, Literatura

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ensaios, Literatura, Sylvia Plath

sylvia

Passados exatos 50 anos da morte de Sylvia Plath (1932 – 1963), completados nesta segunda-feira (11), a identidade da mulher que se matou ao inalar gás de cozinha no fogão de sua casa – e isolou o cômodo para que não atingisse seus filhos que ainda dormiam – permanece uma incógnita. Enquanto alguns biógrafos a definem como desesperada – e colocam a chave desse desequilíbrio muito mais na sua relação com a mãe que com o marido, Ted Hughes (1930 – 1998) -, outros mostram que Plath entrou em colapso simultaneamente ao início do reconhecimento de sua poesia.

De certa forma, as duas hipóteses não estão, de um todo, erradas. A morte chegou a ela menos de um mês após lançar A Redoma de vidro, livro que ajudaria a cunhar a imagem de mulher dramática e à beira de um ataque de nervos. Sua obra-prima, Ariel, só seria lançada dois anos depois de sua morte e seria o primogênito de muitos “filhos póstumos”, dos quais destacam-se as várias edições que seus diários receberam.

Muita gente acredita que estaria, justamente, nesse conjunto confessional – assim como sua poesia – de anotações a chave para compreender a mulher, a artista e, acima de tudo, a suicida Sylvia Plath que, depois de descobrir as traições recorrentes de Hughes, não colocaria um ponto final apenas no casamento. Outro fator que corroborou para a deterioração de Plath está centrado no fato de Ted foi morar com a “outra” – o que teria a enlouquecido e feito com que ficasse alguns meses sem sair de casa.

Censura?

O namoro que havia começado na faculdade e se transformado em um verdadeiro romance hollywoodiano, uma joie de vivre, culminou em uma relação trágica e que ajudaria a pontuar a carreira meteórica de Sylvia Plath que, assim como James Dean (1931 – 1955) e Ian Curtis (1956 – 1980), recebeu uma “pequena ajuda” de seu próprio fim para poder entrar para o mainstream.

Voltando à questão dos diários, quem os lê não encontra nenhuma revelação, nenhuma verdade inesperada sobre ela. Essa falta de fatos se deve, em partes, à possível edição feita por Hughes nos textos que poderiam comprometê-lo. Além disso, todo o espólio ficou legado à cunhada de Plath, Olwyn Hughes – por quem, por sinal, não nutria grande admiração – o que leva a crer que tenha existindo uma espécie de censura sobre diversas situações que poderia macular a honra da família Hughes.

Como desgraça pouca é bobagem, a linhagem dos Hughes parecem ter um quê de Kennedy. Nicholas, o filho mais novo de Ted e Sylvia, nascido em 1962, teve um fim parecido ao da mãe. O biólogo se enforcou em março de 2009 em sua casa. Frieda (1960), primeiro filho do casal, afirmou que o irmão tinha uma forte depressão.

Sylvia Plath lê “Daddy”

Entrevista concedida em 1962

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Especial Fim de semana: Entrevista exclusiva com o poeta e tradutor Fernando Koproski

01 sexta-feira fev 2013

Posted by jonatanrafaeldasilva in Especial Fim de semana, Literatura, Poesia

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Especial Fim de semana, Fernando Koproski, Literatura, Peosia

O convidado dessa semana é o poeta e tradutor curitibano Fernando Koproski. Dono de uma obra sólida em suas duas “funções”, Koproski nos coloca em xeque ao tratar a verdade da poesia e sua função no mundo atual. Autor de Nunca seremos tão felizes como agora (7 Letras, 2009), Tudo o que não sei sobre o amor (Travessa dos editores, 2003) e Pétalas pálpebras e pressas (Sesquicentenário, 2004), tem no currículo poemas traduzidos de Leonard Cohen e Charles Bukowski.

Como surgiu a poesia em seu caminho?

A poesia é um acaso, uma espécie de acidente, uma voz que chama não os melhores, nem os mais belos, mas provavelmente uma convocação aos mais feios, desajustados, talvez problemáticos ou simplesmente despreparados para ficar frente a frente com a beleza e a verdade. E pra mim, a poesia simplesmente surgiu. Não consigo divisar qual momento, ou evento pudesse ter me levado pra essa vida. Às vezes parece que sempre estive despreparado para isso. Mas vou escrevendo meus versos e aos poucos tateando e reconhecendo o rosto do poema no escuro.

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A sua poesia tem um quê de musicalidade – vale lembrar sua parceria com o Carlos Machado e tantos outros. Um poema nasce para ser poesia ou já é concebido para ser cantado?

Acho que os poemas já nascem com sua música interior, seu próprio ritmo, andamento, pausas, silêncios, e ensaios de refrão. Os poemas nascem como um misto de aroma secreto e pintura íntima que tende à música. Naturalmente, quando acontece de algum poema virar letra de música é porque o leitor, no caso um leitor bem especial que é o músico/compositor, desenvolve na leitura a sua própria maneira de interpretar esses sinais sonoros do poema, utilizando-os para construir uma nova melodia e harmonia em cima das que o texto sugere na folha de papel.

Hoje aos 40, qual a principal diferença da poesia que você fazia aos 20?

Talvez muitas ou nenhuma. Pois comecei escrevendo com uma linguagem bem simples. E depois, livro a livro, fui sofisticando a minha poesia, desenvolvendo-a, sobretudo em “Tudo que não sei sobre o amor”, até estourar ela, consumir toda minha escrita numa obsessão lírica pelas coisas inamáveis desse mundo. Isso está presente mais nitidamente na primeira parte do meu livro “Nunca seremos tão felizes como agora”. Depois disso, cansei desses caminhos. E comecei a rasgar outros, abrir outras picadas na branca mata da página em branco. Atualmente, acho que retomei a simplicidade, a busca pela forma mais direta de falar. Tanto que escrevo com outra simplicidade agora, abrindo ou mesmo escancarando os ouvidos do poema às coisas comuns que me trazem música no dia-a-dia. Em resumo, acho que estou começando de novo. A vida pode não começar aos 40, mas a poesia talvez sim.

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Quem acompanha seu trabalho pelo seu blog ou Facebook percebe uma produção constante. Como é seu ritmo de trabalho?

Escrevo só quando estou a fim. E pra isso, ajuda muito estar num ambiente propício, com minhas músicas preferidas e silêncio, sem ninguém telefonando ou batendo palmas no portão. Mas quando o poema acontece, muitas vezes não dá pra escolher o ambiente ou mesmo deixar pra trabalhar uma ideia depois, porque a perderia para sempre. Portanto não importa se estou numa fila de banco, no chuveiro, no meio da madrugada ou dirigindo num congestionamento. Na hora que pintar o poema, é preciso escrever. O resto que fique pra depois, e danem-se as horas de sono perdidas, as compras de mercado que deixei de fazer, ou as contas que fui pagar e desisti. O poema tem prioridade.

O Rodrigo de Souza Leão (1965 – 2009) diz que o “poeta atual está quase sempre em uma profunda oscilação entre o caráter dionisíaco e o apolíneo em sua arte. Para você, o que é o poeta atual?

O poeta atual é um ser em extinção, um espécime tão obsoleto como o LP, as fitas K7 ou a tipografia. É um elemento cada vez mais dispensável numa sociedade de consumo em rápido e furioso processo de desagregação, estupidificação e apodrecimento mental. E ao mesmo tempo, nada mais necessário que a figura do poeta em tempos de pobreza, hipocrisia, azia afetiva, ou assepsia crítica. Pois a poesia ainda pode fazer pensar e sentir, ela ainda atende à fome do intelecto e à sede dos sentimentos compartilhados na íntima relação entre o poeta e o leitor.

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A poesia é ainda um gênero literário um tanto marginalizado ou considerado privilégio de poucos belestristas – o que não é verdade, em nenhum dos casos. Qual a principal dificuldade do poeta atual?

É ser um poeta no mundo atual! E acho que me adiantei e já respondi essa pergunta na anterior, ok?

Com esse escanteio dado à poesia, o que é preciso para que ela “ressurja” – no sentido de alcance? E de quem é a culpa dessa falta de alcance?

Se houver uma culpa, não a delego às escolas, às editoras ou aos diversos formadores de opinião que influenciam e interferem no mercado editorial. Acho que todos esses contribuem para o aprimoramento da leitura em nosso País. Enfim, talvez não haja culpa de ninguém. Apenas os tempos mudaram e muitos “poetas” ou escritores que rascunhavam poesia não acompanharam essas mudanças e insistem em utilizar velhos modelos já gastos que pouco ou nada dizem às novas gerações de leitores. Em resumo, o afastamento das pessoas da poesia, pode ser uma simples reação ao afastamento dos “poetas” de tudo que rodeia e habita a vida dessas pessoas.

Falando um pouco de seu trabalho como tradutor. Com um currículo que incluiu Bukowski e Leonard Cohen, se você pude escolher um autor – que “ainda não passou pelas suas mãos – qual seria?

Já escolhi alguns, mas é claro que não vou revelar aqui. Acredito que quando temos um sonho, devemos guardá-lo e abrigá-lo em silêncio, para que ele possa se desenvolver adequadamente, antes de estar apto a voar. Quando você fala de sonhos, a lei da gravidez precede a lei da gravidade.

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Há um grande dilema no mundo da tradução e que diz respeito a tradução e si e o tradutor como autor. Para você, o tradutor ele é também autor daquela obra ou ele funciona como intermediário entre a obra e o leitor?

Sim, o tradutor é também autor da obra neste novo idioma ao qual se propõe à tradução. Quando sou tradutor, me vejo como ator de um texto já escrito em outra língua, o qual devo me esforçar para apresentar da melhor forma possível para uma plateia de nossa língua. É como ser ator e coautor ao mesmo tempo desse texto. Isso tudo orientado pela figura imaginária que componho do diretor da peça, que é o autor do texto original, no caso o Bukowski ou o Leonard Cohen. Sacou?

Quais os novos projetos que podem ser esperados para 2013?

Escrever com ainda mais liberdade, talvez começar a escrever ficção dentro da poesia. Pois já escrevi demais sobre a minha vidinha. Agora talvez eu fale sobre a vida dos outros, talvez eu fale sobre a sua vida, Jonatan… Isso, sem fazer fofoca, é claro… rsrsrs… E também quero curtir os amigos, a família, e sobretudo amar a pessoa amada. Lembra do Oscar Wilde? “As mulheres foram feitas para serem amadas, e não para serem compreendidas”. Sejam elas esposas, namoradas, irmãs, mães, sogras, ou tias…

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As Muitas pessoas de Fernando Pessoa

23 quarta-feira jan 2013

Posted by jonatanrafaeldasilva in Crítica, Ensaios, Ficção, Literatura, Notícias, Poesia

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Alberto Caeiro, Álvaro de Campos, Bernardo Soares, Companhia das letras, Fernando Pessoa, Literatura, literatura portuguesa, Ricardo Reis

A recente descoberta de muitos papéis inéditos de Fernando Pessoa (1888 – 1935) fez levantar uma importante questão: quem realmente foi Fernando Pessoa? O português foi muito mais que um poeta, dedicou-se à prosa – que, contabilizando toda a produção, em questão de volume, é muito maior o produto poético -, escreveu argumentos para filmes, debateu sobre diversos temas e criou os famosos heterônimos que, ao contrário do que muitos acreditam, não serviam para esconder ou maquiar o português, mas atribuir aos seus diversos talentos algo mais humano.

Ao se recuperar o que há de ainda não publicado do espólio deixado por Pessoa, muitas editoras ao redor do mundo tem aproveitado para se debruçar sobre o que já se conhecia do escritor. Esse fenômeno parece ainda não ter chegado ao Brasil de forma definitiva, embora a editora portuguesa Leya trouxe para as terras tupiniquins duas importantes edições. A primeira, o Dicionário de Fernando Pessoa e do modernismo português (Leya, 2010), de Fernando Cabral Martins, tem um quê de obra de referência e funciona como fonte de pesquisa em assuntos pessoanos e relacionados. Já a segunda, é, na verdade, uma colcha de retalhos de aforismos. Organizado por Paulo Neves da Silva, o livro Citações e pensamentos de Fernando Pessoa (Leya, 2010) tenta mostrar a alma que perscrutava em filósofo de Pessoa, alma esta que ficou um tanto ofuscada pelos demais vieses que vieram à tona.

Nessa marcha pessoana, a Companhia das Letras que tem entre outras obras o clássico O Livro do desassossego, editou um importante documento sobre a vida de Fernando Pessoa e que ajuda a retirar das costas do português a aura mítica que insistem em lhe colocar. A Fotobiografia de Fernando Pessoa, criada sob a tutela Richard Zenith, possui, além de fotografias do próprio autor, reproduções de manuscritos, documentos, e diversos matérias retirados de jornais e revistas de sua época.

Sem qualquer desassossego

Obviamente, a produção divulgada no Brasil ainda é pequena se comparada ao que está acontece lá fora. Pesquisadores de todo mundo têm se reunido, principalmente na Europa, não apenas para discutir Fernando Pessoa, mas também buscar o que há de inédito do escritor.

Alguns publishers ao redor do mundo, sobretudo em Portugal, têm aproveitado esse momento de bons ventos para navegar no mar de Fernando Pessoa. Não bastassem as descobertas e a digitalização dos textos de Pessoa, pelas leis de direto autoral ninguém que queira publicá-lo precisa pagar quaisquer royalties para os herdeiros, o que facilita e bateria – e muito – o custo final da obra.

Ilustre desconhecido

Mesmo com todo o frisson em cima de Pessoa, seus aforismos e um certo culto – perdoem-me o trocadilho – à sua pessoa, muitos estudiosos relataram, sem nenhuma vergonha que nem desconfiavam da existência do autor dos versos “Tudo quanto penso,/Tudo quanto sou/É um deserto imenso/Onde nem eu estou.”.

A surpresa maior aconteceu quando o filósofo italiano Antonio Cardiello revelou à Bravo! achar que Pessoa não passava de uma criação de Borges, provavelmente, algo semelhante a Pierre Menard, tradutor inventado pelo portenho e que dedicou a vida a traduzir Dom Quixote como se fosse o próprio Cervantes. Atualmente, Cardiello, não só tem plena consciência de que Fernando Pessoa foi real, mas se dedica a pesquisar a vastíssima obra deste português.

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Paulo Coelho não é literatura

22 terça-feira jan 2013

Posted by jonatanrafaeldasilva in Crítica, Ensaios, Literatura

≈ 2 Comentários

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Literatura, literatura brasileira, literatura erótica, Paulo Coelho

O título do post por si só já resume tudo o que direi. O artigo de Fernando Antonio Pinheiro, publicado na Ilústríssima deste domingo (20), sobre Paulo Coelho e os motivos pelos quais é desprezado pela academia é a prova viva da avalanche sentimental que recai sobre uma mínima parte da crítica, que se deixa levar por números exorbitantes de vendas – como é o caso do ex-parceiro de Raul Seixas.

Primeiro de tudo: quantidade não é qualidade. Moby dick, de Herman Melville, publicado em 1851, foi um fracasso de vendas em sua época, ficando “esquecido” até meados do século passado, ou seja, demorou quase cem anos para que o livro tivesse seu valor revolucionário reconhecido. Melville, em vida, não chegou nem perto dos 100 milhões de livros vendidos de que Paulo Coelho já alcançou. No entanto, tem como comparar um personagem intrincado como Billy Budd ou Bartleby – de romances homônimos – com Verônika  ou a Srta. Prym?

Velvet underground & Nico, primeiro disco dos apadrinhados de Andy Warhol, foi recebido com frieza pelo grande público – que ainda não estava preparado para receber a poesia dura e crua de Lou Reed. Demoraria alguns anos para que o álbum tivesse seu valor reconhecido. Com letras complexas e melodias vanguardistas, a trupe recriou o rock e foi um dos primeiros grupos a incluir a arte, propriamente dita, em suas músicas.

Esoterismo

Votando ao tema central. Tratar de um evento como a Bienal do Livro de 2010, em especial o debate entre Marçal Aquino e Milton Hatoum sobre a pouca penetração da literatura – gravem essa palavra – brasileira em países estrangeiros, como fez Pinheiro, é um equívoco um tanto infantil. Paulo Coelho não pode ter suas centenas de tradições tratadas dentro do “boom latino-americano”, muito menos ao fim do “realismo mágico” porque, a priori, seus livros não se encaixam em nenhuma das duas “escolas”, ao contrário, não passam de autoajuda.

Apesar de citar Borges como uma de suas maiores influências – lançando um livro homônimo ao O Aleph do argentino e publicar na mesma edição de domingo a parábola A Tradução de Pierre Menard, uma referência ao conto Pierre Menard, autor de Quixote, que já figura de forma mítica na obra de Borges – Coelho esbanja esoterismo, exoterismo e “lições para a vida”, o que transforma seus textos em compêndios de autoajuda e não uma rica literatura.

A falta de qualidade e, principalmente, características literárias sólidas estão entre os principais fatores que não coloquem o Mago no grande circuito da literatura. As expressões “bom combate”, “lenda pessoal”, a teria na qual tudo conspira a seu favor, e frases como  “Nunca desista dos seus sonhos” não passam de um grande engodo para enredar os fracos – pessoas que não estão acostumadas com a leitura de Wilde, Woolf, Joyce, Machado, Borges et alli.

Tentativas forçadas

Qual a diferença entre os livros de Coelho e do atual fenômeno mundial 50 tons de cinza? Somente a abordagem. Isso faz com que a série de E. L. James seja literatura e a obra do brasileiro, não. Obviamente, isso, de forma alguma, significa que esse tipo de literatura erótica tenha alto valor literário – basta ler esse artigo. (Vale lembrar que o próprio Paulo Coelho tentou ingressar nesse ramo com Onze minutos). É impossível pensar em livros como O Alquimista e O Diário de um mago tenham quaisquer traços de literatura. São tentativas forçadas de transformar textos insípidos em parte da tradição literária brasileira.

Ter entrado para a Academia Brasileira de Letra, não bastasse ser um equívoco, não demonstra como o quão defasado estão beletrismo brasileiro. Basta ver a confusão que existe nos prêmios literários como o Jabuti e da Fundação Biblioteca Nacional.

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Especial Fim de semana: Entrevista exclusiva com a tradutora Denise Bottmann

18 sexta-feira jan 2013

Posted by jonatanrafaeldasilva in Especial Fim de semana, Literatura, Tradução

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Companhia das letras, Cosac Naify, Denise Bottmann, Especial Fim de semana, Literatura, Não gosto de plágio, tradução, tradução inédita

Iniciando a série Especial Fim de semana, que será publicada às sextas-feiras – com um conteúdo especial ou uma entrevista – o Nada de meias palavras escolheu a tradutor e “caçadora de plágio” Denise Bottmann. Há quase três décadass no “ramo”, Denise tem entre seus trabalhos obras de Hannah Arendt, John Boyne, as memórias de Matisse e a biografia de Van Gogh.

Além disso, ela tem se notabilizado pela “militância” no combate ao plágio nas traduções. Para isso, Denise mantém o blog Não gosto de plágio.

Em seu currículo você tem obras traduzidas de James Wood (Como funciona a ficção), passando por Peter Gay (Freud: Uma vida para o nosso tempo) e desembocando em Marguerite Duras (O Amante). Até que ponto – tendo em vista a diversidade do seu trabalho – a tradução é uma escolha afetiva, isto é, tem o estopim da escolha das obras pelo tradutor – com liberdade de dizer sim e não – e não apenas uma imposição?

Que coincidência! Outro dia mesmo eu falava em “tradução afetiva”! Mas veja, no fundo não há tanta diversidade em meu trabalho. Mentalmente, faço duas “divisões”. A primeira se dá entre obras de humanidades em geral, que é minha área de concentração, e obras de literatura, a que passei a me dedicar mais recentemente. A segunda divisão se dá entre traduções “normais”, digamos assim, e traduções “afetivas”, que não são necessariamente obras literárias (como o caso de Thoreau).

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Este é um lado da coisa. O outro lado é a questão da escolha, que você cita. De modo geral, as editoras conhecem o perfil de seus colaboradores. Então, habitualmente elas propõem obras em minha área e costumo aceitar. É claro que tenho a liberdade de recusar, e já recusei vários livros, pelas razões mais variadas, desde ideológicas a monetárias.

Então, resumindo, não há imposição editorial: há propostas, que você aceita ou não. É possível também você sugerir algum título e a editora topar.

Em entrevista ao jornal Cândido – da Biblioteca Pública do Paraná (BPP) – o e escritor e tradutor Rubens Figueiredo atentou ao fato de que, muitas vezes, o escritor nem bem escreveu o livro e ele já tem sua tradução vendida. Esse “comércio” atrapalha o tradutor ou ajuda a criar uma profissionalização da área?

Acho que as duas coisas. Nos últimos tempos, tenho feito algumas traduções que escapam a meu perfil habitual: são obras mais de circunstância, que prometem sucesso comercial, às vezes com lançamento simultâneo ao da obra original. Aceitei algumas propostas dessas mais por atenção à casa publicadora do que por qualquer outro motivo. Do ponto de vista de satisfação pessoal, não é a melhor coisa do mundo.

Por outro lado, sem dúvida esse tipo de linha editorial obriga a uma maior profissionalização das próprias editoras, para conseguirem ter seus lançamentos na data prevista e com qualidade pelo menos aceitável. É uma tendência que, creio eu, vai se acelerar ainda mais e as editoras e colaboradores terão de se adequar.

Em todo caso, não é muito minha praia. Prefiro aquelas obras chamadas “de fundo de catálogo”, de maior permanência e menos sofreguidão.

Você pode ser considerada uma “caçadora de plágio”, graças às várias denúncias que você apresenta em seu blog, no entanto, você própria já foi vítima dos “monges copistas” – vale lembrar o caso de In the tracks of historical materialism. Qual é o tratamento dado pelas editoras a esse tema?

Pois sabe que vim a descobrir – e é totalmente compreensível – que as editoras sérias são das maiores interessadas no problema? Afinal, como me disseram vários editores, esse fator – a contrafação, o plágio – acaba gerando uma concorrência desleal complicada para eles. Além disso, a perda de credibilidade dessas editoras faltosas junto aos leitores às vezes pode respingar sobre o setor editorial como um todo, o que não interessa a ninguém, claro.

Então, os editores corretos, até onde sei, apreciam que haja uma reação externa – de leitores, de profissionais, de instituições – contra a corrupção dentro do mundo editorial, antes que ela se alastre demais. Por isso, vários editores são francamente simpáticos a tais denúncias, pois veem que elas acabam tendo um efeito saneador dentro do setor.

Recentemente, uma editora com diversos títulos publicados, e com plágios comprovados, teve seus livros comprados para “fins educacionais”. Uma atitude como essa demonstra a falta de preparo dos órgãos responsáveis por fiscalizar o setor?

Ah, sim, sem dúvida! Melhor dizendo, um órgão como a FBN não pode fiscalizar o setor editorial, nem é seu papel. Nessas terríveis ocorrências no Programa do Livro de Baixo Preço, o despreparo se deu na formulação do programa e no cumprimento (ou falta de cumprimento) das normas dos próprios editais e regulamentos. Bastaria que a FBN determinasse que as editoras, no ato de inscrição, anexassem a documentação comprovando a titularidade dos direitos sobre aquelas obras, como acontece normalmente em qualquer outro programa do governo para aquisição de livros para escolas e bibliotecas públicas. Espero que sanem logo essas insuficiências um tanto primárias.

E ainda: se no momento em que é requerido o ISBN é necessário apresentar diversos dados do título – incluindo o nome do tradutor – como é possível que esses livros cheguem às ruas? E qual o papel das livrarias em permitir que uma obra dos tradutores que você chama de “pretensos” chegue ao leitor?

O ISBN, tal como está funcionando na agência brasileira, tem várias deficiências. Você encontra os cadastros mais estapafúrdios, incompletos, fantasiosos que se podem imaginar. O formulário de solicitação de fato pede vários dados; mas, se o editor não os preencher, nem por isso o formulário será devolvido; é aceito e cadastrado daquele jeito mesmo.

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Pois veja, pela Lei do Livro, é obrigatório que conste o ISBN – mas, se você colocar um número qualquer, quem vai fiscalizar, quem vai ver que está errado, que é frio ou falso? Ninguém. O controle tem de ser na hora da entrada da solicitação; depois, não tem como. Até mais importante do que o ISBN, em termos bibliográficos, é a ficha CIP, igualmente obrigatória. Quantos livros nem ficha CIP têm? Agora, ISBN todos têm, falso ou verdadeiro. Por quê? Porque funciona como código de barras para a comercialização do livro. Ou alguém acha que vai à livraria ou ao Extra ou às Lojas Americanas ou aonde quer que vendam livros, escolhe um livro, o caixa vai tirar uma enorme tabela, procurar o título para então saber o preço? Não. É tudo por código de barras – por isso o ISBN passou a ter 13 dígitos, desde 2007, para ficar no mesmo padrão do EAN-13. Aí o caixa pega o livro, passa por aquela maquininha leitora de código de barras, e pronto, já sai o preço na tela para a emissão da nota.

Então, repito, há editoras que não usam CIP e usam ISBN verdadeiro ou falso porque… ora, não porque a Lei do Livro assim determina, mas porque é o código digital que permite a comercialização do produto.

Agora, livraria é outro drama. Por lei, as livrarias são solidárias na responsabilidade pela contravenção. Mas, na prática, vai da consciência do livreiro. E como muitas livrarias não se importam se vendem fraudes ou não, desde que vendam, a delinquência editorial fica protegida por essa conivência ampla, difusa e generalizada.

O que dizer de nomes como Pietro Nassetti – se ele realmente existisse?

Pietro Nassetti existiu. Incrível, não? Todo mundo acha que era nome inventado. Nada! Era um italiano que migrou para o Brasil nos anos 50 ou 60, dentista, seguidor das doutrinas de Huberto Rohden, amigo do sr. Martin Claret, que morava no ABC paulista e, ao que consta, cedia de muito bom grado seu nome para os cometimentos de seu amigo. Faleceu alguns anos atrás, acho que em 2007, se não me engano. Vai dizer o quê? Repouse em paz. Coitado, virou motivo de escárnio e nome que, hoje em dia, é sinônimo de falcatrua. Triste destino.

Agora, quanto a nomes realmente inventados para encobrir fraudes de tradução, como Enrico Corvisieri, Alex Marins, Jean Melville, John Green, Leopoldo Holzbach, Jorge Luís Penha, Roberto Domenico Proença, Pedro H. Berwick, Peter Klaus Ivanov… É uma galeria de mau gosto, do nível de seus inventores.

Mudando o rumo da conversa, Paulo Henriques Britto, poeta e tradutor, disse ao se referir sobre seu (dele) trabalho de transpor para o português os poemas de Elizabeth Bishop que, muitas vezes, o tradutor precisa abrir mão de algumas coisas, ou seja, precisa construir um objetivo e traçar o caminho até ele. Assim, o tradutor tem o poder de escolher como o texto original vai chegar ao leitor?

Não é bem assim. É que não tem outro jeito. Existem mil maneiras de traduzir uma mesma coisa. Então não é bem um “poder”, é uma necessidade de escolha. Feita essa pequena retificação, sim, o tradutor tem a necessidade de escolher como o texto original vai chegar ao leitor.

E é uma responsabilidade e tanto, pois, na hora em que você “decide”, digamos assim, qual o partido que vai adotar, que tipo de tratamento vai dar à obra em sua tradução, o que você julga mais adequado ou mais compatível com o original, você vai ter de manter esse mesmo tipo de aderência/descolamento ao longo de todo o texto. Não é fácil. E é por isso que podem existir tantas traduções de uma mesma obra. As escolhas nunca são as mesmas.

Ainda sobre a afirmação, nessa escolha, qual é o maior peso que o tradutor tem que levar em conta?

Irrespondível. Cada tradutor vai dizer uma coisa, e o mesmo tradutor vai dizer coisas diferentes para tipos de obras diferentes, para finalidades diferentes, em épocas diferentes.

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Um debate intenso tem sido feito em torno da terceira tradução de Ulysses, de Joyce, feita pelo curitibano Caetano Galindo, e que muita gente já chamou, por entre as linhas, de definitiva. Esse debate que, até certo ponto se tornou popular, é válido na sociedade ou deve ficar restrito a um conclave acadêmico ou uma roda intelectual?

Ah, é validíssimo, e quanto mais amplo melhor! Não li a tradução dele, mas vi aqui e ali vários comentários. Li Ulisses (com i, que foi a opção usada) na tradução do Houaiss. Sempre achei comicíssimo, delicioso. Claro que a tradução do Houaiss é meio pesada, com aqueles neologismos todos, meio empolados demais. Pelo pouco que vi da do Galindo, parece que ele pega mais esse veio muito cômico e divertido do Joyce. Tem ainda a da Bernardina Pinheiro, que também não li, mas, até onde sei, dá um tratamento mais acessível ao texto.

O que eu acharia legal, na verdade, é que lessem mesmo o Uli(y)sses. É importante, é simpático, é divertido – ficou toda essa aura mítica de grande obra, difícil, isso e aquilo. Sim, claro, mas também é muito legível. Ninguém precisa manter nenhuma atitude de deferência, de temor e respeito. As grandes viajações semânticas, a grande revolução literária, as inovações estilísticas e formais, as referências eruditas, tudo isso vem de bônus – e se quiser, pois, se não quiser, a pessoa pode se divertir e ter uma ótima leitura, mais solta, mais descompromissada.

Qual o legado da tradução no Brasil?

O Brasil é um país de formação eminentemente traduzida. É impossível imaginar o país sem depender vitalmente de tradução, em todos os níveis, de bula de remédio e manual de instrução a tudo o que se tem de biologia, física, química, astronomia, filosofia, direito, sociologia, antropologia, economia, teologia, engenharia, matemática, informática, literatura, o que for. No Brasil, até desenvolvemos conhecimentos, mas a partir de bases previamente dadas e sempre dentro de uma dinâmica constante de renovação, que se dá sobretudo em plano internacional. A produção dessa base de conhecimento no mundo ocidental sempre se deu em outra língua que não o português – grego, latim, inglês, francês, alemão, mesmo árabe, e um pouco talvez em italiano e espanhol. E essa dinâmica científica, cultural, intelectual em sentido amplo, continua a ser abastecida basicamente em centros internacionais. Acho que a pergunta é: como seria o Brasil sem tradução?

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