• Sobre o autor

Nada de meias palavras

~ Aqui gosto se discute!

Nada de meias palavras

Arquivos da Tag: tradução

Especial Fim de semana: Entrevista exclusiva com a tradutora Denise Bottmann

18 sexta-feira jan 2013

Posted by jonatanrafaeldasilva in Especial Fim de semana, Literatura, Tradução

≈ Deixe um comentário

Tags

Companhia das letras, Cosac Naify, Denise Bottmann, Especial Fim de semana, Literatura, Não gosto de plágio, tradução, tradução inédita

Iniciando a série Especial Fim de semana, que será publicada às sextas-feiras – com um conteúdo especial ou uma entrevista – o Nada de meias palavras escolheu a tradutor e “caçadora de plágio” Denise Bottmann. Há quase três décadass no “ramo”, Denise tem entre seus trabalhos obras de Hannah Arendt, John Boyne, as memórias de Matisse e a biografia de Van Gogh.

Além disso, ela tem se notabilizado pela “militância” no combate ao plágio nas traduções. Para isso, Denise mantém o blog Não gosto de plágio.

Em seu currículo você tem obras traduzidas de James Wood (Como funciona a ficção), passando por Peter Gay (Freud: Uma vida para o nosso tempo) e desembocando em Marguerite Duras (O Amante). Até que ponto – tendo em vista a diversidade do seu trabalho – a tradução é uma escolha afetiva, isto é, tem o estopim da escolha das obras pelo tradutor – com liberdade de dizer sim e não – e não apenas uma imposição?

Que coincidência! Outro dia mesmo eu falava em “tradução afetiva”! Mas veja, no fundo não há tanta diversidade em meu trabalho. Mentalmente, faço duas “divisões”. A primeira se dá entre obras de humanidades em geral, que é minha área de concentração, e obras de literatura, a que passei a me dedicar mais recentemente. A segunda divisão se dá entre traduções “normais”, digamos assim, e traduções “afetivas”, que não são necessariamente obras literárias (como o caso de Thoreau).

caixa03pronta

Este é um lado da coisa. O outro lado é a questão da escolha, que você cita. De modo geral, as editoras conhecem o perfil de seus colaboradores. Então, habitualmente elas propõem obras em minha área e costumo aceitar. É claro que tenho a liberdade de recusar, e já recusei vários livros, pelas razões mais variadas, desde ideológicas a monetárias.

Então, resumindo, não há imposição editorial: há propostas, que você aceita ou não. É possível também você sugerir algum título e a editora topar.

Em entrevista ao jornal Cândido – da Biblioteca Pública do Paraná (BPP) – o e escritor e tradutor Rubens Figueiredo atentou ao fato de que, muitas vezes, o escritor nem bem escreveu o livro e ele já tem sua tradução vendida. Esse “comércio” atrapalha o tradutor ou ajuda a criar uma profissionalização da área?

Acho que as duas coisas. Nos últimos tempos, tenho feito algumas traduções que escapam a meu perfil habitual: são obras mais de circunstância, que prometem sucesso comercial, às vezes com lançamento simultâneo ao da obra original. Aceitei algumas propostas dessas mais por atenção à casa publicadora do que por qualquer outro motivo. Do ponto de vista de satisfação pessoal, não é a melhor coisa do mundo.

Por outro lado, sem dúvida esse tipo de linha editorial obriga a uma maior profissionalização das próprias editoras, para conseguirem ter seus lançamentos na data prevista e com qualidade pelo menos aceitável. É uma tendência que, creio eu, vai se acelerar ainda mais e as editoras e colaboradores terão de se adequar.

Em todo caso, não é muito minha praia. Prefiro aquelas obras chamadas “de fundo de catálogo”, de maior permanência e menos sofreguidão.

Você pode ser considerada uma “caçadora de plágio”, graças às várias denúncias que você apresenta em seu blog, no entanto, você própria já foi vítima dos “monges copistas” – vale lembrar o caso de In the tracks of historical materialism. Qual é o tratamento dado pelas editoras a esse tema?

Pois sabe que vim a descobrir – e é totalmente compreensível – que as editoras sérias são das maiores interessadas no problema? Afinal, como me disseram vários editores, esse fator – a contrafação, o plágio – acaba gerando uma concorrência desleal complicada para eles. Além disso, a perda de credibilidade dessas editoras faltosas junto aos leitores às vezes pode respingar sobre o setor editorial como um todo, o que não interessa a ninguém, claro.

Então, os editores corretos, até onde sei, apreciam que haja uma reação externa – de leitores, de profissionais, de instituições – contra a corrupção dentro do mundo editorial, antes que ela se alastre demais. Por isso, vários editores são francamente simpáticos a tais denúncias, pois veem que elas acabam tendo um efeito saneador dentro do setor.

Recentemente, uma editora com diversos títulos publicados, e com plágios comprovados, teve seus livros comprados para “fins educacionais”. Uma atitude como essa demonstra a falta de preparo dos órgãos responsáveis por fiscalizar o setor?

Ah, sim, sem dúvida! Melhor dizendo, um órgão como a FBN não pode fiscalizar o setor editorial, nem é seu papel. Nessas terríveis ocorrências no Programa do Livro de Baixo Preço, o despreparo se deu na formulação do programa e no cumprimento (ou falta de cumprimento) das normas dos próprios editais e regulamentos. Bastaria que a FBN determinasse que as editoras, no ato de inscrição, anexassem a documentação comprovando a titularidade dos direitos sobre aquelas obras, como acontece normalmente em qualquer outro programa do governo para aquisição de livros para escolas e bibliotecas públicas. Espero que sanem logo essas insuficiências um tanto primárias.

E ainda: se no momento em que é requerido o ISBN é necessário apresentar diversos dados do título – incluindo o nome do tradutor – como é possível que esses livros cheguem às ruas? E qual o papel das livrarias em permitir que uma obra dos tradutores que você chama de “pretensos” chegue ao leitor?

O ISBN, tal como está funcionando na agência brasileira, tem várias deficiências. Você encontra os cadastros mais estapafúrdios, incompletos, fantasiosos que se podem imaginar. O formulário de solicitação de fato pede vários dados; mas, se o editor não os preencher, nem por isso o formulário será devolvido; é aceito e cadastrado daquele jeito mesmo.

caixa02pronta

Pois veja, pela Lei do Livro, é obrigatório que conste o ISBN – mas, se você colocar um número qualquer, quem vai fiscalizar, quem vai ver que está errado, que é frio ou falso? Ninguém. O controle tem de ser na hora da entrada da solicitação; depois, não tem como. Até mais importante do que o ISBN, em termos bibliográficos, é a ficha CIP, igualmente obrigatória. Quantos livros nem ficha CIP têm? Agora, ISBN todos têm, falso ou verdadeiro. Por quê? Porque funciona como código de barras para a comercialização do livro. Ou alguém acha que vai à livraria ou ao Extra ou às Lojas Americanas ou aonde quer que vendam livros, escolhe um livro, o caixa vai tirar uma enorme tabela, procurar o título para então saber o preço? Não. É tudo por código de barras – por isso o ISBN passou a ter 13 dígitos, desde 2007, para ficar no mesmo padrão do EAN-13. Aí o caixa pega o livro, passa por aquela maquininha leitora de código de barras, e pronto, já sai o preço na tela para a emissão da nota.

Então, repito, há editoras que não usam CIP e usam ISBN verdadeiro ou falso porque… ora, não porque a Lei do Livro assim determina, mas porque é o código digital que permite a comercialização do produto.

Agora, livraria é outro drama. Por lei, as livrarias são solidárias na responsabilidade pela contravenção. Mas, na prática, vai da consciência do livreiro. E como muitas livrarias não se importam se vendem fraudes ou não, desde que vendam, a delinquência editorial fica protegida por essa conivência ampla, difusa e generalizada.

O que dizer de nomes como Pietro Nassetti – se ele realmente existisse?

Pietro Nassetti existiu. Incrível, não? Todo mundo acha que era nome inventado. Nada! Era um italiano que migrou para o Brasil nos anos 50 ou 60, dentista, seguidor das doutrinas de Huberto Rohden, amigo do sr. Martin Claret, que morava no ABC paulista e, ao que consta, cedia de muito bom grado seu nome para os cometimentos de seu amigo. Faleceu alguns anos atrás, acho que em 2007, se não me engano. Vai dizer o quê? Repouse em paz. Coitado, virou motivo de escárnio e nome que, hoje em dia, é sinônimo de falcatrua. Triste destino.

Agora, quanto a nomes realmente inventados para encobrir fraudes de tradução, como Enrico Corvisieri, Alex Marins, Jean Melville, John Green, Leopoldo Holzbach, Jorge Luís Penha, Roberto Domenico Proença, Pedro H. Berwick, Peter Klaus Ivanov… É uma galeria de mau gosto, do nível de seus inventores.

Mudando o rumo da conversa, Paulo Henriques Britto, poeta e tradutor, disse ao se referir sobre seu (dele) trabalho de transpor para o português os poemas de Elizabeth Bishop que, muitas vezes, o tradutor precisa abrir mão de algumas coisas, ou seja, precisa construir um objetivo e traçar o caminho até ele. Assim, o tradutor tem o poder de escolher como o texto original vai chegar ao leitor?

Não é bem assim. É que não tem outro jeito. Existem mil maneiras de traduzir uma mesma coisa. Então não é bem um “poder”, é uma necessidade de escolha. Feita essa pequena retificação, sim, o tradutor tem a necessidade de escolher como o texto original vai chegar ao leitor.

E é uma responsabilidade e tanto, pois, na hora em que você “decide”, digamos assim, qual o partido que vai adotar, que tipo de tratamento vai dar à obra em sua tradução, o que você julga mais adequado ou mais compatível com o original, você vai ter de manter esse mesmo tipo de aderência/descolamento ao longo de todo o texto. Não é fácil. E é por isso que podem existir tantas traduções de uma mesma obra. As escolhas nunca são as mesmas.

Ainda sobre a afirmação, nessa escolha, qual é o maior peso que o tradutor tem que levar em conta?

Irrespondível. Cada tradutor vai dizer uma coisa, e o mesmo tradutor vai dizer coisas diferentes para tipos de obras diferentes, para finalidades diferentes, em épocas diferentes.

caixa01pronta

Um debate intenso tem sido feito em torno da terceira tradução de Ulysses, de Joyce, feita pelo curitibano Caetano Galindo, e que muita gente já chamou, por entre as linhas, de definitiva. Esse debate que, até certo ponto se tornou popular, é válido na sociedade ou deve ficar restrito a um conclave acadêmico ou uma roda intelectual?

Ah, é validíssimo, e quanto mais amplo melhor! Não li a tradução dele, mas vi aqui e ali vários comentários. Li Ulisses (com i, que foi a opção usada) na tradução do Houaiss. Sempre achei comicíssimo, delicioso. Claro que a tradução do Houaiss é meio pesada, com aqueles neologismos todos, meio empolados demais. Pelo pouco que vi da do Galindo, parece que ele pega mais esse veio muito cômico e divertido do Joyce. Tem ainda a da Bernardina Pinheiro, que também não li, mas, até onde sei, dá um tratamento mais acessível ao texto.

O que eu acharia legal, na verdade, é que lessem mesmo o Uli(y)sses. É importante, é simpático, é divertido – ficou toda essa aura mítica de grande obra, difícil, isso e aquilo. Sim, claro, mas também é muito legível. Ninguém precisa manter nenhuma atitude de deferência, de temor e respeito. As grandes viajações semânticas, a grande revolução literária, as inovações estilísticas e formais, as referências eruditas, tudo isso vem de bônus – e se quiser, pois, se não quiser, a pessoa pode se divertir e ter uma ótima leitura, mais solta, mais descompromissada.

Qual o legado da tradução no Brasil?

O Brasil é um país de formação eminentemente traduzida. É impossível imaginar o país sem depender vitalmente de tradução, em todos os níveis, de bula de remédio e manual de instrução a tudo o que se tem de biologia, física, química, astronomia, filosofia, direito, sociologia, antropologia, economia, teologia, engenharia, matemática, informática, literatura, o que for. No Brasil, até desenvolvemos conhecimentos, mas a partir de bases previamente dadas e sempre dentro de uma dinâmica constante de renovação, que se dá sobretudo em plano internacional. A produção dessa base de conhecimento no mundo ocidental sempre se deu em outra língua que não o português – grego, latim, inglês, francês, alemão, mesmo árabe, e um pouco talvez em italiano e espanhol. E essa dinâmica científica, cultural, intelectual em sentido amplo, continua a ser abastecida basicamente em centros internacionais. Acho que a pergunta é: como seria o Brasil sem tradução?

Anúncios

Compartilhe isso:

  • Imprimir
  • E-mail
  • Twitter
  • Facebook
  • Pinterest
  • Tumblr
  • LinkedIn

Curtir isso:

Curtir Carregando...

Dois poemas de Sylvia Plath

13 quinta-feira dez 2012

Posted by jonatanrafaeldasilva in Tradução

≈ Deixe um comentário

Tags

dois poemas, Jonatan Silva, Sylvia Plath, tradução

Sylvia Plath (1932 – 1963) foi uma das maiores poetisas. Com uma vida conturbada e um casamento – que não passou de uma ilusão -, ela construiu sua obra, calcada no dia a dia e no comum, transformado através de uma linguagem rica e sensível. O suicídio serviu para aumentar o mito sobre o nome de Sylvia Plath.

Cinderela

O príncipe curva-se à dama em saltos escarlates
Seus verdes olhos escorrendo, o cabelo migrando em um leque
De prata como o rondo vagueia; agora cambaleia
Estando os violinos em continuo movimento

O total revolver dos garrafões no hall
Onde os convidados buscam à luz feito vinho;
As velas rosas bruxuleiam na parede lilás
Refletindo no brilho de milhões de garrafas,

E faceiros casais estão em rápido transe
E o descanso seguindo se revela longo então
Até que à meia-noite, de uma vez,
a garota estranha
Culpada para, pálida, alcança o príncipe

No meio de passos agitados e de uma conversa
Ela escuta o som pesado do relógio.

Filho

Seus olhos claros são a única coisa bela em absoluto
Eu os preencho de cor e movimento
O zoológico dos mais jovens

Aqueles nomes que você medita —–
As flores de abril; as herbáceas
Pequeninas

Um galho sem rugas,
Piscina em que as imagens
Deveriam ser largas e clássicas

Não esse problemático
Aperto de mãos, essa sombria
Cela sem estrelas.

Compartilhe isso:

  • Imprimir
  • E-mail
  • Twitter
  • Facebook
  • Pinterest
  • Tumblr
  • LinkedIn

Curtir isso:

Curtir Carregando...

As crises e as novas traduções de Clarice Lispector

02 domingo dez 2012

Posted by jonatanrafaeldasilva in Ensaios

≈ Deixe um comentário

Tags

Clarice Lispector, crise, ensaios, tradução

clARI-CE

Clarice Lispector virou moda.

Assim como Caio Fernando Abreu virou moda.

O culto que envolve os clariceanos é muito mais antigo que o boom da internet e começou quando a escritora ainda estava viva. Desprezada por jornais e editoras, Clarice viveu às margens com as formalidades da vida moderna e conseguiu arrebatar uma legião de fãs – pois, muita mais que leitores, Clarice possui fãs – que ajudou a disseminar obras como A Paixão segundo G.H. – muito mais discutido que lido -, A Hora da estrela e Felicidade clandestina – “best-seller” clariceano e introdutor de sua literatura, graças à inclusão do título em muitas listas de vestibular.

O grande trunfo da maioria dos escritos da ucraniana – que veio ao Brasil muito jovem e adotou esse país como sua casa – é a possibilidade de diversas leituras. Quem coloca em mãos A Paixão segundo G.H., por exemplo, pode (não) compreender de maneiras variadas, desde uma interpretação superficial/superfácil da mulher e sua relação com barata no quarto da emprega ou criar um viés psicológico e tudo mais.

Uma mulher em crise

Inspirada por Joyce e Woolf, Clarice adotou o fluxo de consciência dos europeus e o aperfeiçoou, concebendo um modo muito próprio de interagir com o leitor e consigo mesma. Tanto o conto quanto o livro Onde estivestes de noite? Coloca todo o processo de interpretação em xeque. Extremamente metafísico e místico, o conto, deixa o leitor comum – aquele que toma em mãos um livro de Clarice porque “ouviu” falar dele nas redes sociais – se desespera com a narrativa frenética de uma mulher em crise.

Essa é a melhor definição de Clarice – uma mulher em crise? Sim, é. Ela estava aqui – neste mundo – para contestar e mostrar a linha tênue entre a realidade e o imaginário. Em um tempo que nem se falava nas ruas em realidade virtual, Clarice já colocava em pauta a criação do sentido entre o que se vive e o que se imagina viver – o ethos.

Clarice internacional

Chamá-la de “escritora brasileira” chega a transformá-la em banal. Da mesma forma como tratar de Victor Hugo, Machado, Tolstói e Borges apenas suas nacionalidade, afinal, são universas e Clarice também o é. Prova disso está no grande número de traduções que ela tem recebido all over the world.

Com um tratamento de peso, as obras são publicadas com o máximo de cuidado gráfico e esmero, tanto assim é que o mosaico criado pelo designer gráfico Paul Sahre para as edições americanas lançadas pela New Directions.

Para Franzen Clarice é uma escritora notável – mas seus laços com os brasileiros não é de hoje e isso soa um tanto blasé. Pamuk não deixa por menos e afirma que ela é uma das escritoras mais misteriosas do século XX. O que Clarice realmente representa? Nada de mais.

Nada.

Nada diferente de um fluxo interminável, que jorra das entranhas o que o ser humano realmente é, sem pudores e sem maiores poderes. Clarice fala o que é simples, mas está escondido entre os formalismos do cotidiano. Clarice é bruxa; Clarice é heroína, mãe e mulher. Clarice é água. Água viva.

Compartilhe isso:

  • Imprimir
  • E-mail
  • Twitter
  • Facebook
  • Pinterest
  • Tumblr
  • LinkedIn

Curtir isso:

Curtir Carregando...

Dois poemas de Jean Cocteau

16 terça-feira out 2012

Posted by jonatanrafaeldasilva in Tradução

≈ Deixe um comentário

Tags

Jean Cocteau, poesia, português, tradução

Jean Cocteau (1889 – 1963) dedicou-se a todas as formas possíveis de arte, gravitando desde a poesia, passando pelo desenho e até mesmo o cinema. Sempre a frente de seu tempo, construiu um universo próprio, onde imperava a beleza – em forma e conteúdo – e também a vanguarda. Orphée, estrelado por Jean Marais, seu grande amor, é prova cabal disso. Sua obra, infelizmente, parece esquecida no Brasil. As traduções abaixo são minhas.

Homenagem a Eric Satie

Madame Henri Rousseau
sentada em um balão prisioneiro
ela segura um ramalhete
e o oficial aduaneiro Rousseau
comendo seus aperitivos

O aloé soprava com a lua
e a cadeira em tronco
e a linda roupa
e a bela lua
sobre as lindas folhas

O leão africano
seu avantajado ventre feito um saco
ao pé da República
o leão africano
devorando o cavalo do coche

A lua penetra a flauta
do charmoso de ébano
Yadwigha adormecida escuta
sua sina à flauta doce
uma peça em forma de uma pera.

Escola de Guerra

Que tediosa é a vida,
às cinco e meia
com essa matina a meio-mastro

As cornetas contagiosas
multiplicam-se dentro dos quartéis
tal qual uma doce epidemia

Deus como é triste este galo de cobre
o anjo ciclista
a sina dos pequenos
para enviar milhares de despachos

A pobre corneta se cala
dentro dessa enorme casa
e acordam gelados
os viajantes da Grande EstepeNao esque¿a de subir aqui na loja

Compartilhe isso:

  • Imprimir
  • E-mail
  • Twitter
  • Facebook
  • Pinterest
  • Tumblr
  • LinkedIn

Curtir isso:

Curtir Carregando...

Dois poemas de Herman Melville

16 terça-feira out 2012

Posted by jonatanrafaeldasilva in Tradução inédita

≈ Deixe um comentário

Tags

Herman Melville, poesia, português, tradução

A despeito de possuir uma profícua obra poética, Herman Melville (1819 – 1891) é, praticamente, lido apenas por sua prosa – principalmente por Mody Dick e Bartleby, o escrivão – tanto no Brasil quanto no resto do mundo. Por isso, achei justo apresentar duas traduções inéditas de seus poemas. Ambas são produção minha, portanto, não devo créditos a outro tradutor.

Arte

Nas felizes horas plácidas sonhamos
Com tantos bravos esquemas informes.
Então uma forma a tomar, que vida vibrante cria,
Aquilo a que coisas distintas devem juntar-se e procriar:
Uma chama a queimar – uma brisa a refrescar;
Triste procrastinação – jubilantes energias;
Humildade – ainda que orgulhosa e tola;
Instinto e instrução – amor e ódio;
Eis que devem multiplicar-se: audácia e reverência,
E fundir-se ao coração místico de Jacó
Para duelar com um anjo – a Arte.

Aurora Borealis

Que poder interrompe as Luzes do Norte
Depois de furtivamente aparecer?
O observador solitário sente imenso respeito
À persuasão da Natureza.
Como que surgindo,
Ele marca sua ascensão instantânea
Em uma fria amargura –
Recuadas e ataques,
(Como os lentos movimentos da destruição),
Transições e progressos,
E rastros de sangue.

O fantasma-hospedeiro desapareceu por completo
O Esplendor e o Terror se foram
Presságio e promessa – e adeus
À pálida e gentil Aurora;
A ida, a vinda,

Parecidíssimas a uma questão que surge –
Assim como Deus,
Ordenando e comandando
As milhões de lâminas que brilham,
A revista das tropas e a dispersão –
Na Meia-noite e ao Raiar do dia.

Compartilhe isso:

  • Imprimir
  • E-mail
  • Twitter
  • Facebook
  • Pinterest
  • Tumblr
  • LinkedIn

Curtir isso:

Curtir Carregando...

Twitter

  • RT @escotilha: ‘Esquina da minha rua’ (@editora7letras, 2018) : as muitas esquinas de Carlos Machado. Artigo de @jonatanrafael_s https://t.… 8 months ago
  • RT @escotilha: Os abalos sentimentais de Domenico Starnone em ‘Assombrações’ (@todavialivros, 2018). Análise de @jonatanrafael_s https://t.… 8 months ago
  • Estou no ônibus ouvindo o @AntiCast sobre Black Mirror, e o @mizanzuk diz: tem uma coisa no cookie que me incomoda. Ri alto. 9 months ago
  • @cmerigo não tem mais braincast mesmo esse ano? 9 months ago
  • RT @inst_lula: Há 16 anos, o torneiro mecânico Luiz Inácio Lula da Silva, era diplomado Presidente da República revistaforum.com.br/ha-16-anos-o-t… 10 months ago
Follow @jonatanrafael_s

Enter your email address to follow this blog and receive notifications of new posts by email.

Junte-se a 11 outros seguidores

Nada de meias palavras

Nada de meias palavras

Nas nuvens

Cinema Crítica Ensaios Especial Fim de semana Ficção Literatura Música Notícias Poesia Tradução Tradução inédita Uncategorized

Arquivos

Anúncios

Blog no WordPress.com.

Cancelar
loading Cancelar
Post não foi enviado - verifique os seus endereços de e-mail!
Verificação de e-mail falhou, tente novamente
Desculpe, seu blog não pode compartilhar posts por e-mail.
Privacidade e cookies: Esse site utiliza cookies. Ao continuar a usar este site, você concorda com seu uso.
Para saber mais, inclusive sobre como controlar os cookies, consulte aqui: Política de cookies
%d blogueiros gostam disto: