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As Muitas pessoas de Fernando Pessoa

23 quarta-feira jan 2013

Posted by jonatanrafaeldasilva in Crítica, Ensaios, Ficção, Literatura, Notícias, Poesia

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Alberto Caeiro, Álvaro de Campos, Bernardo Soares, Companhia das letras, Fernando Pessoa, Literatura, literatura portuguesa, Ricardo Reis

A recente descoberta de muitos papéis inéditos de Fernando Pessoa (1888 – 1935) fez levantar uma importante questão: quem realmente foi Fernando Pessoa? O português foi muito mais que um poeta, dedicou-se à prosa – que, contabilizando toda a produção, em questão de volume, é muito maior o produto poético -, escreveu argumentos para filmes, debateu sobre diversos temas e criou os famosos heterônimos que, ao contrário do que muitos acreditam, não serviam para esconder ou maquiar o português, mas atribuir aos seus diversos talentos algo mais humano.

Ao se recuperar o que há de ainda não publicado do espólio deixado por Pessoa, muitas editoras ao redor do mundo tem aproveitado para se debruçar sobre o que já se conhecia do escritor. Esse fenômeno parece ainda não ter chegado ao Brasil de forma definitiva, embora a editora portuguesa Leya trouxe para as terras tupiniquins duas importantes edições. A primeira, o Dicionário de Fernando Pessoa e do modernismo português (Leya, 2010), de Fernando Cabral Martins, tem um quê de obra de referência e funciona como fonte de pesquisa em assuntos pessoanos e relacionados. Já a segunda, é, na verdade, uma colcha de retalhos de aforismos. Organizado por Paulo Neves da Silva, o livro Citações e pensamentos de Fernando Pessoa (Leya, 2010) tenta mostrar a alma que perscrutava em filósofo de Pessoa, alma esta que ficou um tanto ofuscada pelos demais vieses que vieram à tona.

Nessa marcha pessoana, a Companhia das Letras que tem entre outras obras o clássico O Livro do desassossego, editou um importante documento sobre a vida de Fernando Pessoa e que ajuda a retirar das costas do português a aura mítica que insistem em lhe colocar. A Fotobiografia de Fernando Pessoa, criada sob a tutela Richard Zenith, possui, além de fotografias do próprio autor, reproduções de manuscritos, documentos, e diversos matérias retirados de jornais e revistas de sua época.

Sem qualquer desassossego

Obviamente, a produção divulgada no Brasil ainda é pequena se comparada ao que está acontece lá fora. Pesquisadores de todo mundo têm se reunido, principalmente na Europa, não apenas para discutir Fernando Pessoa, mas também buscar o que há de inédito do escritor.

Alguns publishers ao redor do mundo, sobretudo em Portugal, têm aproveitado esse momento de bons ventos para navegar no mar de Fernando Pessoa. Não bastassem as descobertas e a digitalização dos textos de Pessoa, pelas leis de direto autoral ninguém que queira publicá-lo precisa pagar quaisquer royalties para os herdeiros, o que facilita e bateria – e muito – o custo final da obra.

Ilustre desconhecido

Mesmo com todo o frisson em cima de Pessoa, seus aforismos e um certo culto – perdoem-me o trocadilho – à sua pessoa, muitos estudiosos relataram, sem nenhuma vergonha que nem desconfiavam da existência do autor dos versos “Tudo quanto penso,/Tudo quanto sou/É um deserto imenso/Onde nem eu estou.”.

A surpresa maior aconteceu quando o filósofo italiano Antonio Cardiello revelou à Bravo! achar que Pessoa não passava de uma criação de Borges, provavelmente, algo semelhante a Pierre Menard, tradutor inventado pelo portenho e que dedicou a vida a traduzir Dom Quixote como se fosse o próprio Cervantes. Atualmente, Cardiello, não só tem plena consciência de que Fernando Pessoa foi real, mas se dedica a pesquisar a vastíssima obra deste português.

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Especial Fim de semana: Entrevista exclusiva com a tradutora Denise Bottmann

18 sexta-feira jan 2013

Posted by jonatanrafaeldasilva in Especial Fim de semana, Literatura, Tradução

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Companhia das letras, Cosac Naify, Denise Bottmann, Especial Fim de semana, Literatura, Não gosto de plágio, tradução, tradução inédita

Iniciando a série Especial Fim de semana, que será publicada às sextas-feiras – com um conteúdo especial ou uma entrevista – o Nada de meias palavras escolheu a tradutor e “caçadora de plágio” Denise Bottmann. Há quase três décadass no “ramo”, Denise tem entre seus trabalhos obras de Hannah Arendt, John Boyne, as memórias de Matisse e a biografia de Van Gogh.

Além disso, ela tem se notabilizado pela “militância” no combate ao plágio nas traduções. Para isso, Denise mantém o blog Não gosto de plágio.

Em seu currículo você tem obras traduzidas de James Wood (Como funciona a ficção), passando por Peter Gay (Freud: Uma vida para o nosso tempo) e desembocando em Marguerite Duras (O Amante). Até que ponto – tendo em vista a diversidade do seu trabalho – a tradução é uma escolha afetiva, isto é, tem o estopim da escolha das obras pelo tradutor – com liberdade de dizer sim e não – e não apenas uma imposição?

Que coincidência! Outro dia mesmo eu falava em “tradução afetiva”! Mas veja, no fundo não há tanta diversidade em meu trabalho. Mentalmente, faço duas “divisões”. A primeira se dá entre obras de humanidades em geral, que é minha área de concentração, e obras de literatura, a que passei a me dedicar mais recentemente. A segunda divisão se dá entre traduções “normais”, digamos assim, e traduções “afetivas”, que não são necessariamente obras literárias (como o caso de Thoreau).

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Este é um lado da coisa. O outro lado é a questão da escolha, que você cita. De modo geral, as editoras conhecem o perfil de seus colaboradores. Então, habitualmente elas propõem obras em minha área e costumo aceitar. É claro que tenho a liberdade de recusar, e já recusei vários livros, pelas razões mais variadas, desde ideológicas a monetárias.

Então, resumindo, não há imposição editorial: há propostas, que você aceita ou não. É possível também você sugerir algum título e a editora topar.

Em entrevista ao jornal Cândido – da Biblioteca Pública do Paraná (BPP) – o e escritor e tradutor Rubens Figueiredo atentou ao fato de que, muitas vezes, o escritor nem bem escreveu o livro e ele já tem sua tradução vendida. Esse “comércio” atrapalha o tradutor ou ajuda a criar uma profissionalização da área?

Acho que as duas coisas. Nos últimos tempos, tenho feito algumas traduções que escapam a meu perfil habitual: são obras mais de circunstância, que prometem sucesso comercial, às vezes com lançamento simultâneo ao da obra original. Aceitei algumas propostas dessas mais por atenção à casa publicadora do que por qualquer outro motivo. Do ponto de vista de satisfação pessoal, não é a melhor coisa do mundo.

Por outro lado, sem dúvida esse tipo de linha editorial obriga a uma maior profissionalização das próprias editoras, para conseguirem ter seus lançamentos na data prevista e com qualidade pelo menos aceitável. É uma tendência que, creio eu, vai se acelerar ainda mais e as editoras e colaboradores terão de se adequar.

Em todo caso, não é muito minha praia. Prefiro aquelas obras chamadas “de fundo de catálogo”, de maior permanência e menos sofreguidão.

Você pode ser considerada uma “caçadora de plágio”, graças às várias denúncias que você apresenta em seu blog, no entanto, você própria já foi vítima dos “monges copistas” – vale lembrar o caso de In the tracks of historical materialism. Qual é o tratamento dado pelas editoras a esse tema?

Pois sabe que vim a descobrir – e é totalmente compreensível – que as editoras sérias são das maiores interessadas no problema? Afinal, como me disseram vários editores, esse fator – a contrafação, o plágio – acaba gerando uma concorrência desleal complicada para eles. Além disso, a perda de credibilidade dessas editoras faltosas junto aos leitores às vezes pode respingar sobre o setor editorial como um todo, o que não interessa a ninguém, claro.

Então, os editores corretos, até onde sei, apreciam que haja uma reação externa – de leitores, de profissionais, de instituições – contra a corrupção dentro do mundo editorial, antes que ela se alastre demais. Por isso, vários editores são francamente simpáticos a tais denúncias, pois veem que elas acabam tendo um efeito saneador dentro do setor.

Recentemente, uma editora com diversos títulos publicados, e com plágios comprovados, teve seus livros comprados para “fins educacionais”. Uma atitude como essa demonstra a falta de preparo dos órgãos responsáveis por fiscalizar o setor?

Ah, sim, sem dúvida! Melhor dizendo, um órgão como a FBN não pode fiscalizar o setor editorial, nem é seu papel. Nessas terríveis ocorrências no Programa do Livro de Baixo Preço, o despreparo se deu na formulação do programa e no cumprimento (ou falta de cumprimento) das normas dos próprios editais e regulamentos. Bastaria que a FBN determinasse que as editoras, no ato de inscrição, anexassem a documentação comprovando a titularidade dos direitos sobre aquelas obras, como acontece normalmente em qualquer outro programa do governo para aquisição de livros para escolas e bibliotecas públicas. Espero que sanem logo essas insuficiências um tanto primárias.

E ainda: se no momento em que é requerido o ISBN é necessário apresentar diversos dados do título – incluindo o nome do tradutor – como é possível que esses livros cheguem às ruas? E qual o papel das livrarias em permitir que uma obra dos tradutores que você chama de “pretensos” chegue ao leitor?

O ISBN, tal como está funcionando na agência brasileira, tem várias deficiências. Você encontra os cadastros mais estapafúrdios, incompletos, fantasiosos que se podem imaginar. O formulário de solicitação de fato pede vários dados; mas, se o editor não os preencher, nem por isso o formulário será devolvido; é aceito e cadastrado daquele jeito mesmo.

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Pois veja, pela Lei do Livro, é obrigatório que conste o ISBN – mas, se você colocar um número qualquer, quem vai fiscalizar, quem vai ver que está errado, que é frio ou falso? Ninguém. O controle tem de ser na hora da entrada da solicitação; depois, não tem como. Até mais importante do que o ISBN, em termos bibliográficos, é a ficha CIP, igualmente obrigatória. Quantos livros nem ficha CIP têm? Agora, ISBN todos têm, falso ou verdadeiro. Por quê? Porque funciona como código de barras para a comercialização do livro. Ou alguém acha que vai à livraria ou ao Extra ou às Lojas Americanas ou aonde quer que vendam livros, escolhe um livro, o caixa vai tirar uma enorme tabela, procurar o título para então saber o preço? Não. É tudo por código de barras – por isso o ISBN passou a ter 13 dígitos, desde 2007, para ficar no mesmo padrão do EAN-13. Aí o caixa pega o livro, passa por aquela maquininha leitora de código de barras, e pronto, já sai o preço na tela para a emissão da nota.

Então, repito, há editoras que não usam CIP e usam ISBN verdadeiro ou falso porque… ora, não porque a Lei do Livro assim determina, mas porque é o código digital que permite a comercialização do produto.

Agora, livraria é outro drama. Por lei, as livrarias são solidárias na responsabilidade pela contravenção. Mas, na prática, vai da consciência do livreiro. E como muitas livrarias não se importam se vendem fraudes ou não, desde que vendam, a delinquência editorial fica protegida por essa conivência ampla, difusa e generalizada.

O que dizer de nomes como Pietro Nassetti – se ele realmente existisse?

Pietro Nassetti existiu. Incrível, não? Todo mundo acha que era nome inventado. Nada! Era um italiano que migrou para o Brasil nos anos 50 ou 60, dentista, seguidor das doutrinas de Huberto Rohden, amigo do sr. Martin Claret, que morava no ABC paulista e, ao que consta, cedia de muito bom grado seu nome para os cometimentos de seu amigo. Faleceu alguns anos atrás, acho que em 2007, se não me engano. Vai dizer o quê? Repouse em paz. Coitado, virou motivo de escárnio e nome que, hoje em dia, é sinônimo de falcatrua. Triste destino.

Agora, quanto a nomes realmente inventados para encobrir fraudes de tradução, como Enrico Corvisieri, Alex Marins, Jean Melville, John Green, Leopoldo Holzbach, Jorge Luís Penha, Roberto Domenico Proença, Pedro H. Berwick, Peter Klaus Ivanov… É uma galeria de mau gosto, do nível de seus inventores.

Mudando o rumo da conversa, Paulo Henriques Britto, poeta e tradutor, disse ao se referir sobre seu (dele) trabalho de transpor para o português os poemas de Elizabeth Bishop que, muitas vezes, o tradutor precisa abrir mão de algumas coisas, ou seja, precisa construir um objetivo e traçar o caminho até ele. Assim, o tradutor tem o poder de escolher como o texto original vai chegar ao leitor?

Não é bem assim. É que não tem outro jeito. Existem mil maneiras de traduzir uma mesma coisa. Então não é bem um “poder”, é uma necessidade de escolha. Feita essa pequena retificação, sim, o tradutor tem a necessidade de escolher como o texto original vai chegar ao leitor.

E é uma responsabilidade e tanto, pois, na hora em que você “decide”, digamos assim, qual o partido que vai adotar, que tipo de tratamento vai dar à obra em sua tradução, o que você julga mais adequado ou mais compatível com o original, você vai ter de manter esse mesmo tipo de aderência/descolamento ao longo de todo o texto. Não é fácil. E é por isso que podem existir tantas traduções de uma mesma obra. As escolhas nunca são as mesmas.

Ainda sobre a afirmação, nessa escolha, qual é o maior peso que o tradutor tem que levar em conta?

Irrespondível. Cada tradutor vai dizer uma coisa, e o mesmo tradutor vai dizer coisas diferentes para tipos de obras diferentes, para finalidades diferentes, em épocas diferentes.

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Um debate intenso tem sido feito em torno da terceira tradução de Ulysses, de Joyce, feita pelo curitibano Caetano Galindo, e que muita gente já chamou, por entre as linhas, de definitiva. Esse debate que, até certo ponto se tornou popular, é válido na sociedade ou deve ficar restrito a um conclave acadêmico ou uma roda intelectual?

Ah, é validíssimo, e quanto mais amplo melhor! Não li a tradução dele, mas vi aqui e ali vários comentários. Li Ulisses (com i, que foi a opção usada) na tradução do Houaiss. Sempre achei comicíssimo, delicioso. Claro que a tradução do Houaiss é meio pesada, com aqueles neologismos todos, meio empolados demais. Pelo pouco que vi da do Galindo, parece que ele pega mais esse veio muito cômico e divertido do Joyce. Tem ainda a da Bernardina Pinheiro, que também não li, mas, até onde sei, dá um tratamento mais acessível ao texto.

O que eu acharia legal, na verdade, é que lessem mesmo o Uli(y)sses. É importante, é simpático, é divertido – ficou toda essa aura mítica de grande obra, difícil, isso e aquilo. Sim, claro, mas também é muito legível. Ninguém precisa manter nenhuma atitude de deferência, de temor e respeito. As grandes viajações semânticas, a grande revolução literária, as inovações estilísticas e formais, as referências eruditas, tudo isso vem de bônus – e se quiser, pois, se não quiser, a pessoa pode se divertir e ter uma ótima leitura, mais solta, mais descompromissada.

Qual o legado da tradução no Brasil?

O Brasil é um país de formação eminentemente traduzida. É impossível imaginar o país sem depender vitalmente de tradução, em todos os níveis, de bula de remédio e manual de instrução a tudo o que se tem de biologia, física, química, astronomia, filosofia, direito, sociologia, antropologia, economia, teologia, engenharia, matemática, informática, literatura, o que for. No Brasil, até desenvolvemos conhecimentos, mas a partir de bases previamente dadas e sempre dentro de uma dinâmica constante de renovação, que se dá sobretudo em plano internacional. A produção dessa base de conhecimento no mundo ocidental sempre se deu em outra língua que não o português – grego, latim, inglês, francês, alemão, mesmo árabe, e um pouco talvez em italiano e espanhol. E essa dinâmica científica, cultural, intelectual em sentido amplo, continua a ser abastecida basicamente em centros internacionais. Acho que a pergunta é: como seria o Brasil sem tradução?

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Os Melhores livros de 2012

11 sexta-feira jan 2013

Posted by jonatanrafaeldasilva in Crítica, Literatura, Notícias

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Companhia das letras, Cosac Naify, Literatura, livros, os melhores livros de 2012

A literatura, em 2012, esteve muito bem servida, tanto em obras de autores nacionais quanto internacionais, sejam inéditas ou alguma espécie de reedição. A ideia desse post – prometido e pretendido para dezembro, mas que acaba por sair só agora – é juntar os cinco melhores livros em duas categorias: ficção inédita, reedição e edição ‘atrasada’ – que são livros lançados em seu “país de origem” anos atrás mas que, porém, ainda não haviam recebido a devida edição brasileira ou receberam um nova publicação no Brasil. Por questão de justiça, os livros estão listados em ordem alfabética de título.

Ficção inédita

Barba ensopada de sangue

Daniel Galera – Companhia das letras, 424 páginas

Considerado por muitos um dos romances mais esperados, Barba ensopada de sangue teve seu primeiro capítulo publicado na edição Os Melhores jovens escritores brasileiros da revista inglesa Granta e, realmente, essa é a parte mais bem traçada do livro, tanto assim é que ele serve de fio condutor para todo o restante. Apesar do realismo frio de Galera, o livro é divisor de águas na carreira do autor e fez com que ele atingisse um novo patamar.

O Filho de mil homens

Valter Hugo Mãe – Cosac Naify, 258 páginas

Livro que sucede o vencedor do Prêmio Portugal Telecom – A Máquina de fazer espanhóis –, O Filho de mil homens traz a prosa característica de Hugo Mãe, repleta de oralidade e uma construção narrativa muito própria. Contando a história do menino Camilo, desamparado que encontra o consolo no mundo e na forma de se entregar aos fatos críveis e incríveis da vida.

A Máquina de madeira

Miguel Sanches Neto – Companhia das letras, 248 páginas

Sem dúvida um dos melhores romances brasileiros de todos os tempos, A Máquina de madeira reconta a história de um Brasil esquecido, perdido entre fatos corruptos e que colocam nosso país em um degrau abaixo do resto mundo. O livro de Sanches Neto é cheio de poesia, construídos sobre o real, transita entre a realidade e a ficção como poucos já fizeram e traça uma trama digna de estar entre os melhores.

Poeira fria

Carlos Machado – Arte e letra, 88 páginas

Não era de se esperar algo que não soasse lírico de Poeira fria. Recheado com a biografia do autor – que se divide entre a música e a literatura -, o livro mostra a pungência extraída da ausência da mulher amada. Um relato corajoso e um acerto de contas consigo mesmo, a obra já está presente em outras “antologias” dos melhores de 2012.

Serena

Ian Mcewan – Companhia das letras, 384 páginas, tradução de Caetano Galindo

Mais que um romance policial, Mcewan subverte o gênero e cria uma narrativa indefectível, capturando o leitor pelo jogo de palavras e ideias. Lançado no Brasil antes mesmo de sair na Inglaterra, Serena coloca em xeque a noção de realidade, tanto para os personagens, quanto para quem lê.

Reedição e edição ‘atrasada’

Bonsai

Alejandro Zambra – Cosac Naify, 64 páginas, tradução de Josely Vianna Baptista

Zambra é um dos principais autores da nova geração de literatos chilenos e foi um dos convidados da FLIP do ano passado. Para coroar sua vinda ao solo brasileiro, a Cosac Naify não deixou passar a oportunidade de lançar o romance de estreia do autor, originalmente publico em 2006. Pequeno e delicado como um bonsai, o livro é um rio que tem imensos afluentes em si mesmo e permite a intertextualidade e a variada interpretação.

A Brincadeira favorita

Leonard Cohen – Cosac Naify, 248 páginas, tradução de Alexandre Barbosa de Souza

Primeira investida do poeta canadense ficção, A Brincadeira favorita foi lançada originalmente em 1963, mas só aportou por aqui no ano passado; criada como romance de formação, alguns fatos da vida do protagonista se chocam com a vivência do próprio Cohen e fluem em uma prosa em que nada deixa a dever para a obra poética e o musical que consagrou o autor.

Dom Quixote

Miguel de Cervantes – Penguin-Companhia, 1328 páginas (2 volumes), tradução de Ernani Ssó

Paródia do romance de cavalaria, Dom Quixote superou as barreiras da autoria e se transformou em adjetivo – quixotesco – para o que parece impossível. Uma das reedições mais importantes e impressionantes do ano, marca a presença em solo brasileiro de uma das obras mais importantes da literatura universal em edição primorosa e cuidadosa.

No andar do tempo

Iberê Camargo – Cosac Naify, 80 páginas

Multifacetado, o gaúcho Iberê Camargo transitou entre as artes plásticas e a literatura esporádica e colocou em suas mãos a poesia da beleza e do desagradável. No andar do tempo, que foi publicado anteriormente pela LP&M, recebeu texto de quarta capa de Nuno Ramos e ilustrações do próprio autor.

Ulysses

James Joyce – Penguin-Companhia, 1112 páginas, tradução de Caetano Galindo

Calhamaço de Joyce, o livro ganha uma importante reedição com tradução de Caetano Galindo, curitibano que tem se destacado nesse feito, com autores “difíceis” no currículo – como Thomas Pynchon, Lou Reed e Ali Smith – e dispensa quaisquer apresentações. Tentando se colocar entre o hermetismo da primeira tradução, de 1966, feita pelo filólogo Antonio Houaiss e o “popularesco” da professor Bernardina da Silveira, de 2001, a empreitada chamou a atenção para um revival da obra de Joyce.

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Elio Gaspari troca Companhia das letras pela Intrínseca

11 sexta-feira jan 2013

Posted by jonatanrafaeldasilva in Literatura, Notícias

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Companhia das letras, Elio Gaspari, Intrínseca, Literatura

Elio Gaspari, autor da tetralogia As ilusões armadas – A ditadura envergonhada, A ditadura escancarada, A ditadura encurralada e A ditadura derrotada – sobre a ditadura militar brasileira oficializou sua saída da Companhia das letras para integrar o time da Intrínseca, considerada uma das editoras mais proeminentes em solo tupiniquim.

A “baixa” foi confirmada por Luiz Schwarcz, fundador e editor da Companhia, casa que se notabilizou pela qualidade de seus títulos. Segundo Schwarcz, “a decisão do autor é sempre soberana, e que neste caso partiu de Elio Gaspari o desejo de sair”.

A previsão é que as obras comecem a ser editadas pela Intrínseca a partir de 2014. Está confirmado também um quinto volume, ainda sem data definida. “É uma honra publicar a maior obra sobre a história recente do Brasil”, disse Jorge Oakim, fundador da nova casa de Gaspari.

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O realismo frio de Daniel Galera

26 segunda-feira nov 2012

Posted by jonatanrafaeldasilva in Crítica

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Barba ensopada de sangue, Companhia das letras, Crítica, Daniel Galera

O enredo de Barba ensopada de sangue de Daniel Galera (Companhia das letras, 448 páginas) é, até certo ponto, um herdeiro do legado deixado por Ian McEwan, Jonathan Franzen, David Foster Wallace e Martins Amis. Não bastasse o cenário inóspito, a praia de Garopaba no litoral de Santa Catarina, o protagonista anônimo vive imerso em dramas familiares e internos.

O primeiro capítulo – que foi publicado na Granta – melhores jovens escritores brasileiros, é, sem dúvida, ao lado do final, a melhor parte do livro. Seja pela empolgação do leitor em começar a saga de um homem que não reconhece rostos, graças à prosopagnosia, doença neurológica que atinge 2% da população mundial, ou pelo término da mesma jornada. Na verdade, nesses dois casos o que mais empolga é a linguagem.

E assim como a linguagem é o motor do livro, é ela também que mata o miolo da obra. Em determinadas passagens – como os amores perdidos e pueris do personagem, assim como os desencontros protagonizados devido à doença – Galera parece não ter escrito com tanto afinco e recheia o texto de uma oralidade que, ao invés de aproximar o leitor, acaba por dar uma estranha sensação de frieza, inaptidão e um encabulado sentimento de não pertencer aquele mundo. Alguns diálogos, principalmente com os nativos e, em especial, com os pescadores, não soam naturais.

Mas esse não é o grande cerne, a válvula que move o barco – com o perdão do trocadilho – é a necessidade de conhecer a história do avô, e, tentar buscá-lo, depois da conversa derradeira com seu pai antes do suicídio, ele, na realidade, quer encontrar a si mesmo e ao comparar-se com o “ancestral” consegue estabelecer uma linha familiar, tênue, mas que faz com que vá atrás da verdadeira história do velho – com um desfecho um tanto surpreendente, o que não quer dizer convincente.

Neuronovel

Talvez o escritor gaúcho tenha inaugurado gênero – se é que se pode chamar assim – iniciado por McEwan em 1997 com Amor sem fim. O nome “neuronovel” veio à tona em 2009, quando o crítico Marco Roth escreveu um ensaio para a revista literária norte-americana n+1 e elencou outras obras da tradição iniciada pelo britânico.

Nesse ponto, Barba ensopada de sangue também é omissa. Em partes, isso se deveu ao fato do personagem principal ser um professor de educação física, o que faz com que ele não tenha um conhecimento refinado em neurologia – tanto assim é que, em quae nenhum momento do livro, o nome prosopagnosia é mencionado.

O “esquecimento” de rostos funciona de duas formas. 1) Ele é um escape para criar um personagem que se mantém recluso em a) um praia e b) dentro de si mesmo. 1.1) O fato de reconhecer nem mesmo a si cria uma nova modalidade de outsider: urbano, esportista e com fortes laços afetivos. 2) A doença ajuda a criar situações inóspitas, como no momento em tenta reconhecer um rival que, além de roubar sua namorada, tenta levar também sua cachorra – a herança deixada pelo pai suicida. Beta, a cachorra, é a única companheira, o único elo familiar do personagem – que foi trocado pela namorado por seu irmão; a mãe que é conivente com os deslizes que família.

Apneia inversa

O romance tem fôlego, muito fôlego e permite que se respire demais. Na quarta capa, Francisco Bosco recomenda o livro, mas deixa claro que ele vai de pontos altos a baixos da escrita – que é perceptível ao longo da leitura.

Barba ensopada de sangue é uma das grandes apostas do mercado editorial brasileiro: além da grande promoção feita dentro do país – como o lançamento com três capas e um projeto gráfico ambicioso para o padrão da editora -, ele já teve seus direitos vendidos para vários países e é uma excelente chance de mostrar ao mundo algo muito além do que os “gringos” esperam de nós.

Avaliação: bom

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Serena: o novo McEwan através do velho

25 domingo nov 2012

Posted by jonatanrafaeldasilva in Crítica, Literatura

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Caetano Galindo, Companhia das letras, Crítica, Ian McEwan, Serena

O britânico Ian McEwan parece ter um dom especial para a reinvenção, criando enredos que – até certo ponto – se distanciam do comum ou conseguem uma abordagem um tanto distinta. Mestre na manipulação do leitor, McEwan deixa bem claro com Serena (Companhia das letras, 384 páginas), seu livro mais recente, que não perdeu a mão.

À primeira vista, o romance parece um insípido roteiro dos livros policiais, com as descrições apuradíssimas que podem ser encontradas em Solar, Na Praia ou em Reparação. Até ai, tudo vai bem e nada muda muito. Ao longo da leitura – que merece ser cuidadosa -, Serena Frome, um estudante mediana, com gosto pouco refinado para a literatura, cai em uma “armadilha” de um amante, Tony Canning, que trabalha para o M15 – serviço secreto inglês – e acaba por ser também recrutada.

Sua missão: levar o aspirante a escritor Tom Haley para um jogo de mentiras – que nem ela mesma entende. Com a ajuda do M15, Haley é laureado e começa a despertar o interessa da mídia. Serena, que além de agente secreto, é amante do escritor, um homem inseguro e que tenta, através da leitura, criar vínculos com o mundo e, ao mesmo tempo, distanciar-se dele.

Como na maioria das obras de McEwan, o grande dilema, o cerne do livro, é um drama misturando questões morais – a traição de Serena ao levar Haley ao abismo do M15 – e a relação titubeante da senhorita Frome com todos os que a cercam. Esses passos falsos são a herança maldita de sua família, conservadora e pouco habituada às modernidades trazidas à tona naquela época – anos 70 – pela liberdade da contracultura e da revolução sexual. A melhor forma para conseguir guiar as opiniões é, em suma, usar uma linguagem estonteante, que apresenta diversas feições autobiográficas, como a referência aos amigos Martin Amis e Christopher Hitchens.

Fantástico realismo

O crítico do New York Times, Kurt Andersen, em recente review do livro comparou a mutação – para não chamar de metamorfose – dos textos de McEwan da seguinte forma: ele teria começado à lá Johnny Rotten –  com Jardim de cimento, A Criança no tempo – desembocando em um Bono Vox – Reparação, Solar e Serena. O que Andersen quer dizer é que, depois de usar temas como incesto, a pedofilia e outras abordagens que valeria ao autor o apelido – até certo ponto lisonjeiro de McCabro -, ele passa a criar dramas históricos ou com um fundo mais absurdo.

Mais uma vez, a explicação para essa façanha só pode ser justificada pela linguagem. E com essa habilidade, não sabemos qual a margem de realidade e fantasia, como o aliciamento de autores como George Orwell – da mesma forma como Haley – para trabalhar a favor do M15.

E esse é o grande mérito: criar um ambiente de leitura, no qual o leitor se perde em fatos labirínticos e deixa claro que aquela é a fala, a voz de Serena e não de McEwan ou Haley. O grande feito é que, com isso, o autor não impõe o seu estilo e consegue criar uma narrativa que, inicialmente, se assemelha a um livro policial – beirando Ian Fleming – algo que eu já disse, anteriormente. Esse “inicialmente” só fará sentido no último capítulo e, em específico, no último parágrafo.

Portanto, é importante ler Serena, sob a tradução do curitibano Caetano Galindo, sem expectativas de ser um livro de McEwan. Não vou deixar os motivos desse “conselho” às claras, pois teria que contar trechos importantes e não é esse o propósito desse texto. Apenas sigam o que digo.

Avaliação: excelente.

Próxima crítica

Barba ensopada de sangue de Daniel Galera

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