Tags

, , ,

Sem qualquer nome consagrado no mainstream cinematográfico brasileiro – mas também sem nenhuma atuação estonteante – O Som ao redor (2011), de Kleber Mendonça Filho, quebra os paradigmas do cinema tupiniquim atual – e em alguns casos, atemporais – e, em vez de escancarar os dramas das favelas e das populações pobres mostra a classe média brasileira, esfacelada pelos próprios temores, criando um ambiente – dentro de si mesma – hostil aos seus valores e em contraponto ao que a sociedade, através de novelas e programas populares, impõem.

Mesmo se limitando a uma única rua de Recife, que, por sinal, é o local onde mora o diretor, o filme se desdobra em vários ambientes e cria situações plurais que vão do tráfico de drogas à rivalidade entre vizinhas – rivalidade de ordem racial, mas que acaba se perpetuando de várias outras maneiras.

Escrito por Mendonça, o roteiro, que bem que poderia ter saído de um livro de Marçal Aquino ou Raduan Nassar, enfoca a chegada inesperada de uma trupe de guardas particulares – que se assemelha às milícias cariocas – trazendo a paz e a desconfiança.

Que país é esse?

Beirando o onírico, a realidade é contrastada com os anseios de gente que não sabe em que patamar está. Por isso, mostrando o que rodeia os personagens pelos olhos de cada um, a câmera ê também um voyeur, assim como todos por ali, e permite ao espectador participar diretamente dos dilemas de uma sociedade pequeno-burguesa.

Diferentemente da brutalidade – muitas vezes gratuita – de Tropa de elite (2007), O Som ao redor possuiu uma violência latente. Mesmo o par romântico, João (Gustavo Jahn) e Sofia (Irma Bown), assim como as casas ao redor dos prédios, não dura pouco e sucumbi às vicissitudes da vida urbana.

O Som ao redor vem em um momento oportuno, retratando uma classe C em ascensão que passa a se identificar com as famílias apresentadas por Mendonça como arquétipo do brasileiro – que vão desde o conhecimento cultura até o modus operandi dos criminosos. Em suma, a produção, considerada a mais importante desde A Cidade de Deus (2002), é um retrato do Brasil petista e de uma parcela considerável da sociedade.

Anúncios