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O assombroso fenômeno que tornou Finnegans Wake (1939) – considerado uma das obras mais difíceis de todos os tempos – do irlandês James Joyce um sucesso de vendas em sua tradução na China tem virado manchete ao redor do mundo. Primeiro, porque o calhamaço de sete volumes por si só deixa leitores, mesmo os mais preparados, de cabelo em pé pelos diversos trocadilhos, jogos de palavras e armadilhas linguísticas criadas pelo autor em diversos idiomas.

A edição chinesa se chama Fennigen de Shouling Ye e foi traduzida para o mandarim pela professora Dai Congrong, de “apenas” 41 anos, e levou oito anos para ficar pronta – o que não é nenhuma eternidade se considerarmos a dificuldade da empreitada e suas muito mais que mil páginas.

A intenção de Congrong é que o livro estivesse ao alcance de estudiosos e escritores, nunca pensando que se transformaria em um fenômeno arrebatador de vendas na China. Para se ter uma ideia, de acordo com o jornal inglês Guardian, a primeira tiragem do primeiro volume saiu com oito mil exemplares e esgotou em um mês. Reparação, do britânico Ian McEwan, considerado um best-seller por lá, vendeu ao todo cinco mil cópias.

Aqui e lá

Quando questionada sobre os métodos utilizados para a transposição dos idiomas, a professora afirmou que teve se simplificar algumas frases, criando períodos mais curtos, porque, caso contrário, seria praticamente impossível. Não é difícil imaginar o porquê muitos leitores não conseguem passar da folha de rosto.

A proposta da tradutora, apesar de controversa, é muito parecida com a escolhida pela professora Bernardina da Silveira que, no começo deste século, fez a segunda tradução de outro clássico joyceano: Ulysses (1921). A principal intenção da brasileira era, justamente, não criar rodeios na linguagem do livro – acusação e pecha que Houaiss carrega até hoje por conta do lançamento da sua tradução em 1966.

Por sinal, a tradução do filólogo ficou um tanto esquecida e longe das prateleiras até o ano passado, quando o curitibano Caetano Galindo levou ao público a terceira tradução do livro que, desta vez, manteve o “y” do título e tinha como principal intento nem ser difícil e nem ser fácil, “somente” fiel ao original. Com o retorno de Ulysses criou-se certo frisson sobre a obra e seu autor, dando novos ares ao irlandês.

Pensando dessa forma, o que se vê por lá não é muito diferente de que se viu por aqui.

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