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Kid Vinil é um dos ícones do rock brasileiro. Vocalista da banda Magazine, ele possui uma das maiores coleções de vinis e CD do país, já foi executivo de gravador, diretor de rádio, apresentador de TV e é referência quando o assunto é música, seu mercado e afins. Kid Vinil é o convidado dessa semana do Especial no Nada de meias palavras.

Os anos 80 foram um dos mais importantes para o rock brasileiro e existe uma espécie de revival eterno desse momento. Qual a principal diferença entre a cena música daquele período e o que vemos no Brasil atual?

Tudo era diferente na década de 80. A começar pelo momento político, existia um espaço aberto a novas ideias. La fora explodia o punk e a new wave e isso acabou refletindo por aqui. De uma forma bem diferente e adaptada a nossa realidade explodia a nossa new wave e o nosso punk. A mídia em geral (rádio, imprensa, TV) abraçou a ideia e abriu espaço pras novas bandas e isso se tornou um movimento popular. O Brasil inteiro cantava nossas musicas. Surgiram inúmeras bandas e uma centena de hits. Na década de 90 a indústria do disco e a grande mídia resolveram investir no lado brasileiro mais popular como pagode, axé e sertanejo e o rock ficou de lado, somente pra recém-chegada MTV. Hoje as coisas são piores, pois o rock não tem nenhum espaço na mídia, mesmo as bandas mais teen começam a perder espaço pros sertanejos. Infelizmente o rock brasileiro voltou pro underground. Existem boas bandas, mas elas não encontram espaço na mídia.

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O vinil voltou com tudo, ao que parece. Assim como é feito lá fora, os artistas brasileiros estão lançando seus trabalhos nesse formato. Ao que você atribuiu esse retorno?

O vinil e um formato cultuado, se o cd tem seus dias contados, o vinil acho que nunca vai acabar, pois foi um dos primeiros e mais consumidos formatos da musica em geral. Tá certo que muitos já nem se importam com o físico e partem pro digital, mas ainda tem muita gente cultuando o vinil, principalmente os colecionadores que não abrem mão disso. Existe uma mágica inexplicável ao se tocar um vinil, nas capas, encartes, tem toda uma arte que atrai o consumidor.

Em uma matéria recente do USA Today, foi descoberto que, nos Estados Unidos, boa parte de quem compra um LP, na verdade, não possuiu o aparelho para tocá-lo. Até que ponto isso é uma tendência de mercado e não o apreço pelo “sabor” da música tocada diretamente do bolachão?

Nos EUA já existem inúmeras ofertas de vitrolas portáteis modelos vintage imitando aquelas das décadas de 50,60 e 70. Muita gente deve comprar vinil porque e cult, chique, sei lá, pra por na parede, mostrar pros amigos. Parece como comprar um livro, mas também e preciso ouvir.

Uma das gravadoras que mais aposta no vinil é a Third Man Rercords, do Jack White. Quem assiste aos seus aos seus podcasts vê que lá você encontrou muita coisa boa. Qual o maior destaque dessa gravadora – além do próprio Jack White?

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Jack White e um fanático por vinil, tanto que montou sua própria gravadora em Nashville. Ele já lançou muita gente em seus compactos limitados. Não existe nenhum artista que seja prioridade em sua gravadora alem dele mesmo e seus projetos. O legal e que ele abre espaço pra muita gente começar lançando seu single, como First Aid Kit,Jeff the brotherhood, smoke fairies,Pujol,The Black Belles e outros novatos. Mas também grava gente famosa como Wanda Jackson, Tom Jones, Beck, Laura Marling Dungen, além de reeditar coisas históricas como John Wayne (a banda) Public Nuisance e agora um pacote de clássicos do blues.

Será que teremos um retorno também das fitas cassete?

Esse formato eu acho difícil, alem de pouco pratico, pois a fita deteriora com o tempo, já o vinil se bem conservado e pra sempre.

Falando um pouco da sua carreira musical. O Maganize está entre as bandas mais icônicas dos anos 80, mas, apesar de ter vindo do punk, ela rompeu com o estilo. Isso foi uma imposição para fazer sucesso ou um direcionamento natural?

Foi um direcionamento natural, não estávamos muito enquadrados no punk local, eu era um executivo de gravadora na época e não conseguia conviver pacificamente com os punks e ao mesmo tempo adorava new wave e powerpop, então decidi fazer uma banda nesse gênero e deu certo.

 Uma pergunta que sempre me fiz: nunca houve problemas pelo fato da sua banda (Magazine) ter o mesmo nome do grupo inglês formado pelo ex-Buzzcocks Howard Devoto?

Não, acho que se tivéssemos escolhido The Police ou qualquer outro nome de banda grande daquela época teríamos problemas, mas Magazine e um nome também encontrado na língua portuguesa. Pros ingleses significa uma revista, mas no Brasil ta mais pra loja, pensamos em nomes de lojas quando resolvemos adotar o nome. Claro que eu já sabia da existência do outro Magazine inglês, mas arrisquei na certeza que não teria problemas, como não teve, acho que o Devoto nunca ouviu falar da gente, pois nosso sucesso foi apenas local. Nunca fizemos nada lá fora, nem mesmo em Portugal ou em países da américa latina.

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Em outras oportunidades você já comentou que nos 90 havia certo preconceito sobre você, seu trabalho… Você pode falar sobre isso?

Na década de 90 o rock nacional dos 80 depois de superexposto na mídia causou um certo cansaço principalmente nas novas gerações que acompanhavam o começo do indie rock. Eu fiz sucesso com um estilo bem pop e muito distante de qualquer alternativo a época. Isso desagradava os indies e ao mesmo tempo incomodava, pois eu quem fazia os programas de rock alternativo no radio. Sempre tive essas varias facetas, nasci com a jovem guarda e adorava aquele rock mais popular, foi a base da minha formação musical, alem e claro de Beatles e Stones. Muitos não entendiam como um cara que gostava de pós-punk e rock alternativo, podia ao mesmo tempo gostar e fazer musica mais popular e comercial. Muitos ate hoje não entendem esse meu ecletismo dentro da musica pop, mas acho que no pop e importante experimentar todas as tendências, claro dentro do que e rock, Sempre fui muito aberto a todas vertentes, das mais populares as mais vanguardistas e experimentalistas. Ate hoje sou assim, ouço de tudo que e pop, sem preconceitos.

Você é um colecionador inveterado. Como é ser colecionador no Brasil, onde quase não se editam singles, compactos são um achado, o vinil ainda é para poucos e o CD anda moribundo.

Compro muito vinil pelo Ebay, as vezes vou as feiras aqui em SP, na Praça Benedito Calixto ou as feiras organizadas pelo Tangerino e pelo Marcio Custodio, lá você encontra muita coisa rara e interessante.

Rubber ring do The Smiths tem os versos “don’t forget the songs that made you cry and that saved your life”. Qual música te fez chorar e qual salvou sua vida – ou te despertou de alguma forma?

Tinha que ser uma dos Beatles: In My Life uma balada lindíssima, com uma letra apaixonante. Um disco dos Beatles que me despertou pra vida foi o “Álbum Branco”, a grande descoberta, a grande revolução na minha vida começava ali.

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