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As incitações recentes ao debate sobre a imbecilização do Brasil fizeram com que eu me movimentasse. Os artigos de Mino Carta e Cynara Menezes colocam em pauta – cada qual a seu modo – o resultado de nossa colonização precária e nosso desenvolvimento atarracado nas questões culturais.

Dizer que o país é um deserto é um erro, mas retratar que estamos em pé de igualdade com a Europa, também é. Obviamente, vivemos um momento interessante, no qual não somente o mainstream das artes é valorizado, mas também todos aqueles artistas que comem pelas bordas. Gente como Nuno Ramos, que há tempos trabalha duro, não faz muito conseguiu seu verdadeiro reconhecimento – quer prova maior que Bandeira Branca (2010), sua obra mais polêmica, na Bienal de 2010?

O que mais me interessa é que o “street view” das artes plásticas, se é que isso realmente existe, tem navegado alhures do eixo Rio-São Paulo, colocando em evidência nomes como Eliane Prolik – que tem obras no MuMA (Curitiba), na Pinacoteca (São Paulo), só para citar dois exemplos -, Bernadete Amorim que, em 2012, participou de uma importante coletiva e levou a sua série Adentros ao público.

Claro, que quando falamos de artistas brasileiros, não estamos falando apenas de Iberê Camargo, Bandeira, Nelson Leirner – que um leitor da Cynara disse temer -, Goeldi e Waltérico Caldas, mas de tantos outros que representam o país e colocam o nome do Brasil no mundo das artes. Acha que isso não passa de um devaneio? Acompanhe com certa regularidade os leilões e você perceberá com alguma clareza o que digo.

(Sei que tem gente lendo o texto e pensando: que é feito de Romero Britto? Bem, ele é o Paulo Coelho das artes, por isso, não conta.)

Medo de ter medo de ter medo

Quando falamos em poder de consumo, independente do setor em que tocamos, não tem como não falar sobre esse assunto. Com uma parte da população com dinheiro na mão e ensandecida para gastá-lo é natural que as áreas culturais somem maiores retornos também. Prova disso está na venda de livro, que subiu imensamente.

Entretanto, aí preciso fazer uma análise: a quantidade de livros vendidos é proporcional à qualidade da leitura ou essa equação ocorre ao inverso? Sim, ela acontece em sentidos contrários. De forma muito rápida: basta ver a vastidão as edições de títulos como Cinquenta tons de cinza, enquanto obras maravilhosas – como as Ficções completas de Bruno Schulz – pena para esgotar com “apenas” quatro mil exemplares.

Dizer que esse percentual da sociedade, em ascensão, não lê é uma mentira deslavada, no entanto, não dá para afirmar que eles consomem alta literatura ou conhecem o que é arte de qualidade. Mas não há drama nisso, afinal, assim como tudo na vida, é preciso aprender, reciclar, reinventar, portanto, é natural que Drummond, Clarice, Dalton e tantos outros não figurem nas prateleiras dos novos leitores, mas é provável que, no andar do tempo, as coisas mudem.

Ou seja, a moral da história é que a população não está imbecil, ao contrário, está em um processo mais que saudável de amadurecimento e que, logo, renderá frutos.

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