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Apresentado pela primeira vez em Cannes, em maio do ano passado, Amor (2012) chegou apenas em janeiro à Curitiba. Dotado de todo o lirismo que é possível ao tratar da morte, Michael Haneke dá ao expectador o crítico processo de autoavaliação ao narrar a história de Anne (Emmanuell Riva) e Georges (Jean-Louis Trintignant) que precisam lidar com o fardo do fim que, mais que carregado, precisa ser aceito.

Os dois são professores de música aposentados e se deparam com uma grave doença que, ao acometer Anne no café da manhã após a noite do concerto de um de seus pupilos, passa regrar a vida deles e também da filha Eva (Isabelle Huppert), que vive no exterior, mas percebe o inferno em que os pais se meteram.

Repleto de metáforas, o filme discute muito mais que a velhice e as formas de lidar com a morte e traz, sob a égide de uma pomba, a verdadeira libertação do ser humano. Quando a situação se torna insuportável, Georges precisa tomar uma decisão que transformará a sua vida, entretanto, para chegar a esse ponto, ele precisa descobrir o caminho que terá de seguir – e uma estrada onde a rima de amor com dor não é pobre, mas o guia definitivo.

Performance

O que muitos chamam de drama é, em suma, um filme de arte, que, apesar dos planos usuais, é recheado de tomadas longas que vão desde o simples escolher de um vestido até a “poda” de um buquê de flor. Haneke, que esteve à frente do polêmico A Fita Branca (2009), foi certeiro no elenco ao colocar Riva – que ficou imortalizada por Hiroshima, mon amour, de Alain Resnais , de 1959, – e revelar toda a beleza de um talento maduro em um papel que poderia se transformar em algo repulsivo pela carga do personagem, afundando e autodestrutivo.

Por isso, mais que uma performance, os atores se entregam e quem assiste chega ao ponto de viver a vida desses personagens, sentindo a mesma necessidade de libertação, fuga e o calor do desespero.

Assim como Hanami – Cerejeiras em flor (2008), dirigido por Doris Dörrie, Amor mostra as dificuldades do casamento maduro e a complexa relação entre presença e ausência. Enquanto no primeiro a perda gera uma catarse imediata, o segundo consegue lidar com a possibilidade de um recomeço, mas que é ceifado pela angústia e pela dura realidade.

Viver a vida

A complicada família Laurent parece ter sido tirada de Sonata de outono (1978), de Bergman, onde até mesmo as questões musicais possuem uma dolorosa simbiose. Ao contrário do drama sueco, a “filha” de Haneke, Eva, é bem resolvida – a despeito do casamento conflituoso – e talentosa musicalmente.

Entretanto, em nenhum dos casos as famílias devem receber a nossa dó, ao contrário, os vemos se arrastando e é isso que faz com que o filme viva, criando em nós o sentimento de afiliação àquela dor.

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