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O convidado dessa semana é o poeta e tradutor curitibano Fernando Koproski. Dono de uma obra sólida em suas duas “funções”, Koproski nos coloca em xeque ao tratar a verdade da poesia e sua função no mundo atual. Autor de Nunca seremos tão felizes como agora (7 Letras, 2009), Tudo o que não sei sobre o amor (Travessa dos editores, 2003) e Pétalas pálpebras e pressas (Sesquicentenário, 2004), tem no currículo poemas traduzidos de Leonard Cohen e Charles Bukowski.

Como surgiu a poesia em seu caminho?

A poesia é um acaso, uma espécie de acidente, uma voz que chama não os melhores, nem os mais belos, mas provavelmente uma convocação aos mais feios, desajustados, talvez problemáticos ou simplesmente despreparados para ficar frente a frente com a beleza e a verdade. E pra mim, a poesia simplesmente surgiu. Não consigo divisar qual momento, ou evento pudesse ter me levado pra essa vida. Às vezes parece que sempre estive despreparado para isso. Mas vou escrevendo meus versos e aos poucos tateando e reconhecendo o rosto do poema no escuro.

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A sua poesia tem um quê de musicalidade – vale lembrar sua parceria com o Carlos Machado e tantos outros. Um poema nasce para ser poesia ou já é concebido para ser cantado?

Acho que os poemas já nascem com sua música interior, seu próprio ritmo, andamento, pausas, silêncios, e ensaios de refrão. Os poemas nascem como um misto de aroma secreto e pintura íntima que tende à música. Naturalmente, quando acontece de algum poema virar letra de música é porque o leitor, no caso um leitor bem especial que é o músico/compositor, desenvolve na leitura a sua própria maneira de interpretar esses sinais sonoros do poema, utilizando-os para construir uma nova melodia e harmonia em cima das que o texto sugere na folha de papel.

Hoje aos 40, qual a principal diferença da poesia que você fazia aos 20?

Talvez muitas ou nenhuma. Pois comecei escrevendo com uma linguagem bem simples. E depois, livro a livro, fui sofisticando a minha poesia, desenvolvendo-a, sobretudo em “Tudo que não sei sobre o amor”, até estourar ela, consumir toda minha escrita numa obsessão lírica pelas coisas inamáveis desse mundo. Isso está presente mais nitidamente na primeira parte do meu livro “Nunca seremos tão felizes como agora”. Depois disso, cansei desses caminhos. E comecei a rasgar outros, abrir outras picadas na branca mata da página em branco. Atualmente, acho que retomei a simplicidade, a busca pela forma mais direta de falar. Tanto que escrevo com outra simplicidade agora, abrindo ou mesmo escancarando os ouvidos do poema às coisas comuns que me trazem música no dia-a-dia. Em resumo, acho que estou começando de novo. A vida pode não começar aos 40, mas a poesia talvez sim.

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Quem acompanha seu trabalho pelo seu blog ou Facebook percebe uma produção constante. Como é seu ritmo de trabalho?

Escrevo só quando estou a fim. E pra isso, ajuda muito estar num ambiente propício, com minhas músicas preferidas e silêncio, sem ninguém telefonando ou batendo palmas no portão. Mas quando o poema acontece, muitas vezes não dá pra escolher o ambiente ou mesmo deixar pra trabalhar uma ideia depois, porque a perderia para sempre. Portanto não importa se estou numa fila de banco, no chuveiro, no meio da madrugada ou dirigindo num congestionamento. Na hora que pintar o poema, é preciso escrever. O resto que fique pra depois, e danem-se as horas de sono perdidas, as compras de mercado que deixei de fazer, ou as contas que fui pagar e desisti. O poema tem prioridade.

O Rodrigo de Souza Leão (1965 – 2009) diz que o “poeta atual está quase sempre em uma profunda oscilação entre o caráter dionisíaco e o apolíneo em sua arte. Para você, o que é o poeta atual?

O poeta atual é um ser em extinção, um espécime tão obsoleto como o LP, as fitas K7 ou a tipografia. É um elemento cada vez mais dispensável numa sociedade de consumo em rápido e furioso processo de desagregação, estupidificação e apodrecimento mental. E ao mesmo tempo, nada mais necessário que a figura do poeta em tempos de pobreza, hipocrisia, azia afetiva, ou assepsia crítica. Pois a poesia ainda pode fazer pensar e sentir, ela ainda atende à fome do intelecto e à sede dos sentimentos compartilhados na íntima relação entre o poeta e o leitor.

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A poesia é ainda um gênero literário um tanto marginalizado ou considerado privilégio de poucos belestristas – o que não é verdade, em nenhum dos casos. Qual a principal dificuldade do poeta atual?

É ser um poeta no mundo atual! E acho que me adiantei e já respondi essa pergunta na anterior, ok?

Com esse escanteio dado à poesia, o que é preciso para que ela “ressurja” – no sentido de alcance? E de quem é a culpa dessa falta de alcance?

Se houver uma culpa, não a delego às escolas, às editoras ou aos diversos formadores de opinião que influenciam e interferem no mercado editorial. Acho que todos esses contribuem para o aprimoramento da leitura em nosso País. Enfim, talvez não haja culpa de ninguém. Apenas os tempos mudaram e muitos “poetas” ou escritores que rascunhavam poesia não acompanharam essas mudanças e insistem em utilizar velhos modelos já gastos que pouco ou nada dizem às novas gerações de leitores. Em resumo, o afastamento das pessoas da poesia, pode ser uma simples reação ao afastamento dos “poetas” de tudo que rodeia e habita a vida dessas pessoas.

Falando um pouco de seu trabalho como tradutor. Com um currículo que incluiu Bukowski e Leonard Cohen, se você pude escolher um autor – que “ainda não passou pelas suas mãos – qual seria?

Já escolhi alguns, mas é claro que não vou revelar aqui. Acredito que quando temos um sonho, devemos guardá-lo e abrigá-lo em silêncio, para que ele possa se desenvolver adequadamente, antes de estar apto a voar. Quando você fala de sonhos, a lei da gravidez precede a lei da gravidade.

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Há um grande dilema no mundo da tradução e que diz respeito a tradução e si e o tradutor como autor. Para você, o tradutor ele é também autor daquela obra ou ele funciona como intermediário entre a obra e o leitor?

Sim, o tradutor é também autor da obra neste novo idioma ao qual se propõe à tradução. Quando sou tradutor, me vejo como ator de um texto já escrito em outra língua, o qual devo me esforçar para apresentar da melhor forma possível para uma plateia de nossa língua. É como ser ator e coautor ao mesmo tempo desse texto. Isso tudo orientado pela figura imaginária que componho do diretor da peça, que é o autor do texto original, no caso o Bukowski ou o Leonard Cohen. Sacou?

Quais os novos projetos que podem ser esperados para 2013?

Escrever com ainda mais liberdade, talvez começar a escrever ficção dentro da poesia. Pois já escrevi demais sobre a minha vidinha. Agora talvez eu fale sobre a vida dos outros, talvez eu fale sobre a sua vida, Jonatan… Isso, sem fazer fofoca, é claro… rsrsrs… E também quero curtir os amigos, a família, e sobretudo amar a pessoa amada. Lembra do Oscar Wilde? “As mulheres foram feitas para serem amadas, e não para serem compreendidas”. Sejam elas esposas, namoradas, irmãs, mães, sogras, ou tias…

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