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O título do post por si só já resume tudo o que direi. O artigo de Fernando Antonio Pinheiro, publicado na Ilústríssima deste domingo (20), sobre Paulo Coelho e os motivos pelos quais é desprezado pela academia é a prova viva da avalanche sentimental que recai sobre uma mínima parte da crítica, que se deixa levar por números exorbitantes de vendas – como é o caso do ex-parceiro de Raul Seixas.

Primeiro de tudo: quantidade não é qualidade. Moby dick, de Herman Melville, publicado em 1851, foi um fracasso de vendas em sua época, ficando “esquecido” até meados do século passado, ou seja, demorou quase cem anos para que o livro tivesse seu valor revolucionário reconhecido. Melville, em vida, não chegou nem perto dos 100 milhões de livros vendidos de que Paulo Coelho já alcançou. No entanto, tem como comparar um personagem intrincado como Billy Budd ou Bartleby – de romances homônimos – com Verônika  ou a Srta. Prym?

Velvet underground & Nico, primeiro disco dos apadrinhados de Andy Warhol, foi recebido com frieza pelo grande público – que ainda não estava preparado para receber a poesia dura e crua de Lou Reed. Demoraria alguns anos para que o álbum tivesse seu valor reconhecido. Com letras complexas e melodias vanguardistas, a trupe recriou o rock e foi um dos primeiros grupos a incluir a arte, propriamente dita, em suas músicas.

Esoterismo

Votando ao tema central. Tratar de um evento como a Bienal do Livro de 2010, em especial o debate entre Marçal Aquino e Milton Hatoum sobre a pouca penetração da literatura – gravem essa palavra – brasileira em países estrangeiros, como fez Pinheiro, é um equívoco um tanto infantil. Paulo Coelho não pode ter suas centenas de tradições tratadas dentro do “boom latino-americano”, muito menos ao fim do “realismo mágico” porque, a priori, seus livros não se encaixam em nenhuma das duas “escolas”, ao contrário, não passam de autoajuda.

Apesar de citar Borges como uma de suas maiores influências – lançando um livro homônimo ao O Aleph do argentino e publicar na mesma edição de domingo a parábola A Tradução de Pierre Menard, uma referência ao conto Pierre Menard, autor de Quixote, que já figura de forma mítica na obra de Borges – Coelho esbanja esoterismo, exoterismo e “lições para a vida”, o que transforma seus textos em compêndios de autoajuda e não uma rica literatura.

A falta de qualidade e, principalmente, características literárias sólidas estão entre os principais fatores que não coloquem o Mago no grande circuito da literatura. As expressões “bom combate”, “lenda pessoal”, a teria na qual tudo conspira a seu favor, e frases como  “Nunca desista dos seus sonhos” não passam de um grande engodo para enredar os fracos – pessoas que não estão acostumadas com a leitura de Wilde, Woolf, Joyce, Machado, Borges et alli.

Tentativas forçadas

Qual a diferença entre os livros de Coelho e do atual fenômeno mundial 50 tons de cinza? Somente a abordagem. Isso faz com que a série de E. L. James seja literatura e a obra do brasileiro, não. Obviamente, isso, de forma alguma, significa que esse tipo de literatura erótica tenha alto valor literário – basta ler esse artigo. (Vale lembrar que o próprio Paulo Coelho tentou ingressar nesse ramo com Onze minutos). É impossível pensar em livros como O Alquimista e O Diário de um mago tenham quaisquer traços de literatura. São tentativas forçadas de transformar textos insípidos em parte da tradição literária brasileira.

Ter entrado para a Academia Brasileira de Letra, não bastasse ser um equívoco, não demonstra como o quão defasado estão beletrismo brasileiro. Basta ver a confusão que existe nos prêmios literários como o Jabuti e da Fundação Biblioteca Nacional.

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