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O novo breakground literário é a narrativa erótica de Cinquenta tons de cinza de E. L. James. Ponto. Disso não se tem a menor duvida, basta ver o número de congêneres a aparecer – como os romances de Sylvia Day – e os leitores enrubescidos ao ler as obras nos ônibus, trens e metros.

O que há de novo nisso se no século XVIII Sade já ajudava a construir o gênero – criando até o adjetivo – com romances como Os Crimes do amor? Logicamente, não se pode comparar, em questão de qualidade, enredo e estética narrativa e de sintaxe, Sade com James, afinal a britânica não conseguiria chegar aos pés do francês.

Outro importante romance que ajudou a conceber o gênero da literatura erótica é Vênus das peles, de Leopold von Sancher-Masoch, que além de originar outro adjetivo e inspirar a música de Lou Reed, é deixar a sensualidade cinza do best-seller de cabelo em pé.

A História do olho, de Bataille, é tão surpreendente e forte quanto os anteriores. Mais que um marco, o livro quebra barreiras e desfaz tabus, por meio de experiências reais – ou melhoradas – do escritor.

Censura

Da mesma forma como Sade e Masoch, de D. H. Lawrence com seu O Amante de Lady Chatterly, censurado na Inglaterra quando foi escrito em 1928, sendo publicado clandestinamente na Itália – só foi liberado na década de 1960.

Qualquer comparação com E. L. James seria cruel por demais. Ao contar a história de uma mulher rica que, com a invalidez do marido, passa a ter um caso com um trabalhador da fazenda onde mora.

Nem sempre precisa ter a sexo – em si, como tema, bastava a devassidão – aparecendo, por muito menos Gustave Flaubert e sua Madame Bovary fora vítimas de criticas rechaçadas contra a história da esposa do médico Charles Bovary que na ausência do marido se aventurava e curava seu tédio  nos braços de outro(s).

Cânone despedaçado

A obra-prima joyceana, Ulysses, também precisou se pirateada e lançada na França, por conta da censura, que o despedaçou devido ao capítulo da masturbação de Leopold e dos pensamentos devassos de Molly.

O caso de Ulysses é um tanto delicado. As quase mil páginas do volume, sem dúvida um divisor de águas, se passam em um único dia: 16 de junho. Os mais puritanos dirão que este foi o dia em que Joyce e Nora deram as mãos pela primeira vez. A história real é que, nessa data, Joyce conheceu – no sentido bíblico – Nora, que viria a ser sua companheira de toda vida.

Pois bem, o escritor de Finnegans wake deixou bem claro em cartas, um tanto “calientes”, à esposa seus desejos moderninhos – desejos estes prontamente atendidos por Nora.

No escuro

Se pensarmos no subjetivo, não há como deixar de lado Wilde com O Retrato de Dorian Gray, usado como prova no processo – na verdade uma reversão de causa – movido pelo Marqués de Queensbury, pai de seu amante, Lord Alfred Douglas.

Em suma, quem quiser ler literatura erótica de verdade, não precisa passar nem perto de cinquenta tons de tédio.

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