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clARI-CE

Clarice Lispector virou moda.

Assim como Caio Fernando Abreu virou moda.

O culto que envolve os clariceanos é muito mais antigo que o boom da internet e começou quando a escritora ainda estava viva. Desprezada por jornais e editoras, Clarice viveu às margens com as formalidades da vida moderna e conseguiu arrebatar uma legião de fãs – pois, muita mais que leitores, Clarice possui fãs – que ajudou a disseminar obras como A Paixão segundo G.H. – muito mais discutido que lido -, A Hora da estrela e Felicidade clandestina – “best-seller” clariceano e introdutor de sua literatura, graças à inclusão do título em muitas listas de vestibular.

O grande trunfo da maioria dos escritos da ucraniana – que veio ao Brasil muito jovem e adotou esse país como sua casa – é a possibilidade de diversas leituras. Quem coloca em mãos A Paixão segundo G.H., por exemplo, pode (não) compreender de maneiras variadas, desde uma interpretação superficial/superfácil da mulher e sua relação com barata no quarto da emprega ou criar um viés psicológico e tudo mais.

Uma mulher em crise

Inspirada por Joyce e Woolf, Clarice adotou o fluxo de consciência dos europeus e o aperfeiçoou, concebendo um modo muito próprio de interagir com o leitor e consigo mesma. Tanto o conto quanto o livro Onde estivestes de noite? Coloca todo o processo de interpretação em xeque. Extremamente metafísico e místico, o conto, deixa o leitor comum – aquele que toma em mãos um livro de Clarice porque “ouviu” falar dele nas redes sociais – se desespera com a narrativa frenética de uma mulher em crise.

Essa é a melhor definição de Clarice – uma mulher em crise? Sim, é. Ela estava aqui – neste mundo – para contestar e mostrar a linha tênue entre a realidade e o imaginário. Em um tempo que nem se falava nas ruas em realidade virtual, Clarice já colocava em pauta a criação do sentido entre o que se vive e o que se imagina viver – o ethos.

Clarice internacional

Chamá-la de “escritora brasileira” chega a transformá-la em banal. Da mesma forma como tratar de Victor Hugo, Machado, Tolstói e Borges apenas suas nacionalidade, afinal, são universas e Clarice também o é. Prova disso está no grande número de traduções que ela tem recebido all over the world.

Com um tratamento de peso, as obras são publicadas com o máximo de cuidado gráfico e esmero, tanto assim é que o mosaico criado pelo designer gráfico Paul Sahre para as edições americanas lançadas pela New Directions.

Para Franzen Clarice é uma escritora notável – mas seus laços com os brasileiros não é de hoje e isso soa um tanto blasé. Pamuk não deixa por menos e afirma que ela é uma das escritoras mais misteriosas do século XX. O que Clarice realmente representa? Nada de mais.

Nada.

Nada diferente de um fluxo interminável, que jorra das entranhas o que o ser humano realmente é, sem pudores e sem maiores poderes. Clarice fala o que é simples, mas está escondido entre os formalismos do cotidiano. Clarice é bruxa; Clarice é heroína, mãe e mulher. Clarice é água. Água viva.

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