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O enredo de Barba ensopada de sangue de Daniel Galera (Companhia das letras, 448 páginas) é, até certo ponto, um herdeiro do legado deixado por Ian McEwan, Jonathan Franzen, David Foster Wallace e Martins Amis. Não bastasse o cenário inóspito, a praia de Garopaba no litoral de Santa Catarina, o protagonista anônimo vive imerso em dramas familiares e internos.

O primeiro capítulo – que foi publicado na Granta – melhores jovens escritores brasileiros, é, sem dúvida, ao lado do final, a melhor parte do livro. Seja pela empolgação do leitor em começar a saga de um homem que não reconhece rostos, graças à prosopagnosia, doença neurológica que atinge 2% da população mundial, ou pelo término da mesma jornada. Na verdade, nesses dois casos o que mais empolga é a linguagem.

E assim como a linguagem é o motor do livro, é ela também que mata o miolo da obra. Em determinadas passagens – como os amores perdidos e pueris do personagem, assim como os desencontros protagonizados devido à doença – Galera parece não ter escrito com tanto afinco e recheia o texto de uma oralidade que, ao invés de aproximar o leitor, acaba por dar uma estranha sensação de frieza, inaptidão e um encabulado sentimento de não pertencer aquele mundo. Alguns diálogos, principalmente com os nativos e, em especial, com os pescadores, não soam naturais.

Mas esse não é o grande cerne, a válvula que move o barco – com o perdão do trocadilho – é a necessidade de conhecer a história do avô, e, tentar buscá-lo, depois da conversa derradeira com seu pai antes do suicídio, ele, na realidade, quer encontrar a si mesmo e ao comparar-se com o “ancestral” consegue estabelecer uma linha familiar, tênue, mas que faz com que vá atrás da verdadeira história do velho – com um desfecho um tanto surpreendente, o que não quer dizer convincente.

Neuronovel

Talvez o escritor gaúcho tenha inaugurado gênero – se é que se pode chamar assim – iniciado por McEwan em 1997 com Amor sem fim. O nome “neuronovel” veio à tona em 2009, quando o crítico Marco Roth escreveu um ensaio para a revista literária norte-americana n+1 e elencou outras obras da tradição iniciada pelo britânico.

Nesse ponto, Barba ensopada de sangue também é omissa. Em partes, isso se deveu ao fato do personagem principal ser um professor de educação física, o que faz com que ele não tenha um conhecimento refinado em neurologia – tanto assim é que, em quae nenhum momento do livro, o nome prosopagnosia é mencionado.

O “esquecimento” de rostos funciona de duas formas. 1) Ele é um escape para criar um personagem que se mantém recluso em a) um praia e b) dentro de si mesmo. 1.1) O fato de reconhecer nem mesmo a si cria uma nova modalidade de outsider: urbano, esportista e com fortes laços afetivos. 2) A doença ajuda a criar situações inóspitas, como no momento em tenta reconhecer um rival que, além de roubar sua namorada, tenta levar também sua cachorra – a herança deixada pelo pai suicida. Beta, a cachorra, é a única companheira, o único elo familiar do personagem – que foi trocado pela namorado por seu irmão; a mãe que é conivente com os deslizes que família.

Apneia inversa

O romance tem fôlego, muito fôlego e permite que se respire demais. Na quarta capa, Francisco Bosco recomenda o livro, mas deixa claro que ele vai de pontos altos a baixos da escrita – que é perceptível ao longo da leitura.

Barba ensopada de sangue é uma das grandes apostas do mercado editorial brasileiro: além da grande promoção feita dentro do país – como o lançamento com três capas e um projeto gráfico ambicioso para o padrão da editora -, ele já teve seus direitos vendidos para vários países e é uma excelente chance de mostrar ao mundo algo muito além do que os “gringos” esperam de nós.

Avaliação: bom

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