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O britânico Ian McEwan parece ter um dom especial para a reinvenção, criando enredos que – até certo ponto – se distanciam do comum ou conseguem uma abordagem um tanto distinta. Mestre na manipulação do leitor, McEwan deixa bem claro com Serena (Companhia das letras, 384 páginas), seu livro mais recente, que não perdeu a mão.

À primeira vista, o romance parece um insípido roteiro dos livros policiais, com as descrições apuradíssimas que podem ser encontradas em Solar, Na Praia ou em Reparação. Até ai, tudo vai bem e nada muda muito. Ao longo da leitura – que merece ser cuidadosa -, Serena Frome, um estudante mediana, com gosto pouco refinado para a literatura, cai em uma “armadilha” de um amante, Tony Canning, que trabalha para o M15 – serviço secreto inglês – e acaba por ser também recrutada.

Sua missão: levar o aspirante a escritor Tom Haley para um jogo de mentiras – que nem ela mesma entende. Com a ajuda do M15, Haley é laureado e começa a despertar o interessa da mídia. Serena, que além de agente secreto, é amante do escritor, um homem inseguro e que tenta, através da leitura, criar vínculos com o mundo e, ao mesmo tempo, distanciar-se dele.

Como na maioria das obras de McEwan, o grande dilema, o cerne do livro, é um drama misturando questões morais – a traição de Serena ao levar Haley ao abismo do M15 – e a relação titubeante da senhorita Frome com todos os que a cercam. Esses passos falsos são a herança maldita de sua família, conservadora e pouco habituada às modernidades trazidas à tona naquela época – anos 70 – pela liberdade da contracultura e da revolução sexual. A melhor forma para conseguir guiar as opiniões é, em suma, usar uma linguagem estonteante, que apresenta diversas feições autobiográficas, como a referência aos amigos Martin Amis e Christopher Hitchens.

Fantástico realismo

O crítico do New York Times, Kurt Andersen, em recente review do livro comparou a mutação – para não chamar de metamorfose – dos textos de McEwan da seguinte forma: ele teria começado à lá Johnny Rotten –  com Jardim de cimento, A Criança no tempo – desembocando em um Bono Vox – Reparação, Solar e Serena. O que Andersen quer dizer é que, depois de usar temas como incesto, a pedofilia e outras abordagens que valeria ao autor o apelido – até certo ponto lisonjeiro de McCabro -, ele passa a criar dramas históricos ou com um fundo mais absurdo.

Mais uma vez, a explicação para essa façanha só pode ser justificada pela linguagem. E com essa habilidade, não sabemos qual a margem de realidade e fantasia, como o aliciamento de autores como George Orwell – da mesma forma como Haley – para trabalhar a favor do M15.

E esse é o grande mérito: criar um ambiente de leitura, no qual o leitor se perde em fatos labirínticos e deixa claro que aquela é a fala, a voz de Serena e não de McEwan ou Haley. O grande feito é que, com isso, o autor não impõe o seu estilo e consegue criar uma narrativa que, inicialmente, se assemelha a um livro policial – beirando Ian Fleming – algo que eu já disse, anteriormente. Esse “inicialmente” só fará sentido no último capítulo e, em específico, no último parágrafo.

Portanto, é importante ler Serena, sob a tradução do curitibano Caetano Galindo, sem expectativas de ser um livro de McEwan. Não vou deixar os motivos desse “conselho” às claras, pois teria que contar trechos importantes e não é esse o propósito desse texto. Apenas sigam o que digo.

Avaliação: excelente.

Próxima crítica

Barba ensopada de sangue de Daniel Galera

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