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Eu olhava e tentava não sentir um nó na garganta. Muita gente me disse que é normal passar por isso nessa fase, eu não achava. Não é com você, eu respondia em pensamento. Meu corpo doía e eu minha cabeça latejava de uma forma diferente, como se fosse arrancada milímetro a milímetro. É um ato de coragem, me dizia. É? Não, não é. É uma questão de não ter escolha, simplesmente isso, é um dever a ser cumprido e eu estava ali, cumprindo meu dever.

As sensações são inúmeras, são indescritíveis, no entanto, elas forçam passagem e continuam, ali. Alguns me consolam, outros me abraçam e tantos nem tem coragem de se aproximar de mim. Se colocam em uma distância, como se isso fosse uma questão intrincada de respeito e condolência. Muitos dizem que fui ausente; nem tento me explicar. A vida é dura, eu digo aos mais íntimos. É, me respondem.

Um velório é o melhor lugar para saber o quão dissimulados podem ser os seres humanos. Nada mais me surpreende desde então. O cheiro de vela penetrava meu nariz sem lubrificar a entrada, a seco, eu sentia a ardência daquele cheiro insuportável. Maior que a dor era o desconforto de sentir aquela forma lapidada de chorume.

Quando o caixão baixou, me senti aliviado. Saí dali, bebi um uísque e, finalmente, chorei, feito criança. Meu pai havia esperado anos antes de morrer – ficou paralisado em uma cama, um câncer, ou algo assim, já não me lembro. Agora não faz diferença, ele se foi.

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