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C’est difficile.

Paris já não é mais a mesma. Esse é um fato difícil, mas necessário, a ser aceito. Assim com o Brasil, a França mudou e também não me sinto em casa por aqui. Passeando pelos cafés e bares da Champes-Élysées relembro quando deixei minha terra e me enfiei na Ilha de Godard. Quantas peças e romances escrevi sobre uma ditadura que eu não vive, não tive coragem de encarar e fugi. Carreguei dinheiro e reputação e deixei a honra de lutar pelo meu povo. Escondi a mim mesmo nessa máscara de intelectual, como óculos de aro e terninho de risca de giz.

Não me perdoo. Não perdoo aqueles que tomaram o Brasil e fizeram dele o que ele é hoje. Quando 1964 chegou, eu fui embora. Hoje, vejo que foi um erro. Um erro calculado, pensando e esquematizado que chamei com pompas e glamour de autoexílio. Naquele tempo, uma das poucas coisas que o dinheiro poderia comprar. E eu comprei. Paguei no ato, mas até hoje me sinto endividado.

Saí cego, metaforicamente, e retornarei, provavelmente sob homenagens, cego – literalmente. Assim como Borges, a luz se transformou em lembrança. Não preciso ditar nada a ninguém, programas de computador me ajudam a escrever o que eu quiser, na língua em que eu bem entender. Sou um intelectual de fachada. Vivo uma vida que construíram para mim, através de livros, reportagens, mentiras, mentiras e equívocos. Quem errou fui eu. Devo pagar por isso.

Je suis petit.

Contar uma história é retornar ao fato, fazer dele uma ferida aberta e ver verter o sangue, ouvir os gritos de dor e, acima de tudo, tentar curar e criar um remédio. Por isso, escrevo e envio pelo correio: não tenho coragem de usar um e-mail, nesse caso. Seria muito rápido. Não teria o mesmo impacto. Todos saberiam de bate-pronto. Não é isso que espero.

Quando tomei a decisão, pensei em cicuta, que é nobre. Entretanto, vai da forma que der. Não há porque deixar as coisas para depois – tudo é e está estabelecido pelo relógio temporal. Pensei poderia concluir minha exegese por meio de um romance biográfico, como se faz, atualmente. Que graça teria? Todos fazem: contam uma história de infância pobre, filho doente e amor perdido e acreditam que ali está a cura psicanalítica para a dor.

Não, não é.

Obviamente, ao escrever essa carta/conto/poesia em prosa – chame como quiser, pois evoco Mário de Andrade e sua célebre frase sobre assunto – faço o mesmo, mas como sempre, mascarado. Somos protagonistas da modernidade, da contemporaneidade, para ser mais exato. E o que isso nos diz? Coloca-nos a par de todas as agruras do mundo através de jornais, revistas e tudo que nos é vomitado pela internet.

À l’aide!

Não tive como pedir ajuda. Certamente, quando isso chegar às suas mãos ainda estarei na Ilha de Godard. Ainda estarei por aqui, quem sabe embarcando para chegar ao Brasil e passear em carro aberto. Talvez não. Como um astro de rock, crio a minha história e dou voz ao mito que existe em mim.

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