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Jonatan Silva

A chuva caía fina e gelada como neve na cidade. Com o mau tempo ninguém se atrevia a sair de casa e no espelho do banheiro P. contemplava, consternado, o seu duplo. Sentindo que aquele não era seu reflexo, ele tentava, em vão, entender o que havia de errado e construía -em paisagens mentais – as mais diversas possibilidades. Relembrava as aulas de físicas e rompia em hipóteses sobre espelhos côncavos, convexos ou qualquer outra teoria que podia abalar sua imagem naquele vidro laminado.

Piscava os olhos e seu duplo mantinha-se inerte – em protesto a um movimento que não queria fazer. Parado naquele cubículo sentia o mau cheiro que vinha do ralo e passava a ter certeza que precisava chamar o encanador. Por algum motivo, sempre adiava o conserto e agora percebia que havia algo errado ali.

O rosto enquadrado naquela moldura de metal ganhava ares de retrato, como aqueles que decoravam as casas da aristocracia. Rebelde, aquele retrato vivia ao modo wildeano e parecia ter intento próprio. Envelheceria?

Com a mão pesada, rasgou aquela tela vítrea e foi até o criado-mudo para tomar um comprimido. Sem água, engoliu a seco a pílula. Fuma um cigarro e prepara uma pastilha de hortelã. Pela janela do apartamento, P. observa a tempestade que se aproxima e as pessoas em miniatura a passos apressados tentando se esquivar dos pingos frios que caem feito granizo, com dureza e uma frialdade inigualáveis.

Quando a luz acabou, voltou a se sentar no sofá, que parecia feito de rudes blocos de concreto.

***

Consciente de que havia dois mundos, um de olhos abertos e outro de olhos fechados, P. abaixa as pálpebras e começa a viver.

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