Jonatan Silva

Que primavera era aquela que trazia consigo coisa alguma? A estação vanguardista parecia inerte quando mostrou seus ares neste ano. Preocupado, Enrique já se aprontava para pesquisar, em algum lugar virtual, sobre qualquer possível desgraça climática que poderia tomar o mundo de assalto e ser apropriada por qualquer grupo religioso mequetrefe como um sinal do Juízo Final.

Nada. Absolutamente, nada. Em certo aspecto, aquela negação tinha diversos aspectos positivos, imaginou. Entretanto, tanto otimismo não fez com que Enrique desistisse de descobrir sobre o fracasso do tempo primaveril, afinal, podia estar diante de alguma importante descoberta que teria passado despercebida por rios de meteorologistas de todo o mundo. Consultou compêndios enciclopédicos e nenhum rastro do apocalipse. Chegou a cogitar de procurar na bíblia, mas logo desistiu da empreitada e foi deitar-se no sofá da sala.

Ao lado, na mesa do telefone, havia um copo de vinho com resquícios da visita que recebeu na noite anterior. Bebeu aquelas gotinhas de forma demorada, como se a taça estivesse, no mínimo, preenchida até a metade. Tudo parecia muito ritualístico e o rapaz não queria fazer diferente. Com certo esforço, alcançou os desenhos que estavam colocados sob uma das almofadas do outro sofá e começou a analisar aquelas linhas febris. Percebia o talento que tinha, mesmo tendo um pouco de dificuldade com os pontos de fuga, dando um pouco de desequilíbrio ao conjunto.

Que sentimentos cartográficos eram aqueles que tentavam mapear a primavera? Enrique sentou e esperou, buscou no excesso de tempo que tinha a desculpa para continuar ali, deitado no sofá feito carne morta.

Quando lembrou do divórcio, percebeu, repentinamente, que, talvez, houvesse uma razão para tudo ter mudado. Embora o fim não lhe preocupasse mais, sabia que ia precisar de um tempo sozinho. E assim, ele ia vivendo sorrateiramente uma vida que, quem sabe, não o pertencesse, não lhe fosse legitima, mas que, como uma luva de outrem, lhe cabia com perfeição. E, portanto, aceitava. E assim, ele ia vivendo.

O fogo que pensou em acender no cigarro o fez lembrar que não fumava – mas, sentia vontade, agora. Como não tinha maço algum, logo desistiu. Poderia até ir à padaria comprar um ou mesmo procurar em casa, pois algum amigo poderia ter largado um por ali. Continuava deitado, calado e sem pensamentos sólidos, somente raciocinava o básico e dava-se por satisfeito em encadear poucas ideias, nada muito prolixo ou que cheirasse às cinzas ambiguidades.

Quando lembrou que ela o havia abandonado, sem levar nada, e colocado em seu lugar Bianka, a amiga russa que o próprio Enrique havia apresentado sentiu vontade de largar tudo e se libertar daquilo. Já fazia um tempo, ele sabia, mas, ainda assim, doía como se tivesse sido ontem. Outras mulheres passaram por aquele mesmo sofá que abrigava, agora, aquele apanhado de massa amorfa e sem cor. Seria a dor somente uma idée fixe?

A liberdade era tão vazia que o deixava enfastiado por completado, deitado à sombra do prédio vizinho e sobre um sofá velho e marcado, sem importância alguma. Era primavera e ela foi embora sem, ao menos, ter chegado. Lembrando das provas que precisava corrigir e entregar como devolutiva aos alunos, Enrique percebeu a bobagem que fazia e quis saber onde estava o telefone, ligaria de imediato para a escola e pediria sua demissão. Não precisava de muitas explicações, simplesmente daria adeus, como quem deixa o pássaro voar, oras – pensou.

Uma barata que caminhava em seus passinhos lépidos lhe conteve a atenção e não levantou. Prometeu, em silêncio, que não a comeria. Afinal, também tinha ela direito de viver. E se aquele inseto fosse apenas a síntese de alguém metamorfoseado? Isso o deteve do desejo de devorá-la com o mesmo ímpeto infantil com o qual não deu clemência a besouros, moscas e minhocas. Sentia nojo.

E por isso, continuava ali e, certamente, caso alguém lhe perguntasse coisas a fazer, responderia à moda de Bartleby. Enriques também preferia o nada. Os dias possuíam uma escuridão desigual, avassaladora e perigosa, que não se atrevia a recuar nem com a vinda dos raios solares. Chovia gotas quentes e duras que se assemelhavam a pequenos pedaços de ferro jogados do céu.

Aqueles eram dias desleais.

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