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A recente descoberta de muitos papéis inéditos de Fernando Pessoa (1888 – 1935) fez levantar uma importante questão: quem realmente foi Fernando Pessoa? O português foi muito mais que um poeta, dedicou-se à prosa – que, contabilizando toda a produção, em questão de volume, é muito maior o produto poético -, escreveu argumentos para filmes, debateu sobre diversos temas e criou os famosos heterônimos que, ao contrário do que muitos acreditam, não serviam para esconder ou maquiar o português, mas atribuir aos seus diversos talentos algo mais humano.

Ao se recuperar o que há de ainda não publicado do espólio deixado por Pessoa, muitas editoras ao redor do mundo tem aproveitado para se debruçar sobre o que já se conhecia do escritor. Esse fenômeno parece ainda não ter chegado ao Brasil de forma definitiva, embora a editora portuguesa Leya trouxe para as terras tupiniquins duas importantes edições. A primeira, o Dicionário de Fernando Pessoa e do modernismo português (Leya, 2010), de Fernando Cabral Martins, tem um quê de obra de referência e funciona como fonte de pesquisa em assuntos pessoanos e relacionados. Já a segunda, é, na verdade, uma colcha de retalhos de aforismos. Organizado por Paulo Neves da Silva, o livro Citações e pensamentos de Fernando Pessoa (Leya, 2010) tenta mostrar a alma que perscrutava em filósofo de Pessoa, alma esta que ficou um tanto ofuscada pelos demais vieses que vieram à tona.

Nessa marcha pessoana, a Companhia das Letras que tem entre outras obras o clássico O Livro do desassossego, editou um importante documento sobre a vida de Fernando Pessoa e que ajuda a retirar das costas do português a aura mítica que insistem em lhe colocar. A Fotobiografia de Fernando Pessoa, criada sob a tutela Richard Zenith, possui, além de fotografias do próprio autor, reproduções de manuscritos, documentos, e diversos matérias retirados de jornais e revistas de sua época.

Sem qualquer desassossego

Obviamente, a produção divulgada no Brasil ainda é pequena se comparada ao que está acontece lá fora. Pesquisadores de todo mundo têm se reunido, principalmente na Europa, não apenas para discutir Fernando Pessoa, mas também buscar o que há de inédito do escritor.

Alguns publishers ao redor do mundo, sobretudo em Portugal, têm aproveitado esse momento de bons ventos para navegar no mar de Fernando Pessoa. Não bastassem as descobertas e a digitalização dos textos de Pessoa, pelas leis de direto autoral ninguém que queira publicá-lo precisa pagar quaisquer royalties para os herdeiros, o que facilita e bateria – e muito – o custo final da obra.

Ilustre desconhecido

Mesmo com todo o frisson em cima de Pessoa, seus aforismos e um certo culto – perdoem-me o trocadilho – à sua pessoa, muitos estudiosos relataram, sem nenhuma vergonha que nem desconfiavam da existência do autor dos versos “Tudo quanto penso,/Tudo quanto sou/É um deserto imenso/Onde nem eu estou.”.

A surpresa maior aconteceu quando o filósofo italiano Antonio Cardiello revelou à Bravo! achar que Pessoa não passava de uma criação de Borges, provavelmente, algo semelhante a Pierre Menard, tradutor inventado pelo portenho e que dedicou a vida a traduzir Dom Quixote como se fosse o próprio Cervantes. Atualmente, Cardiello, não só tem plena consciência de que Fernando Pessoa foi real, mas se dedica a pesquisar a vastíssima obra deste português.

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